Um dia de verão terminando, uma lagoa calma brilhando, o sol se pondo. Uma imagem linda. Mas no carro parado atrás do pequeno bosque, sozinha, com as mãos amarradas para trás, o rosto sangrando e a respiração fraca, ela escutava.
Ouvia sons vindos da praia. Risadas, conversas, som de remos batendo na água. Lembrou de quando era criança e vinha com a família neste mesmo lugar. Lembrou da água cristalina, das pedras e da mata em volta, das garças voando e mergulhando para pescar. Lembrou da cor de caramelo da areia, das montanhas ao longe, das canoas se afastando pelo canal, do vento no rosto. Lembrou das crianças brincando, das bolas, das bóias, das tias, de ficar com uma fome santa, de raspar o prato e de ser elogiada por isso. Lembrou das bebidas doces, dos sorvetes, da bagunça na volta para casa, do sono, dos sonhos. Lembrou do sorriso da mãe.
Gostou tanto da infância ali, que quando ganhou o carro, saía da cidade e ia para lá passear, ficar à toa sozinha, para ler, para pensar, sem medo. Sempre sem medo.
Até hoje. Foi lá para tirar fotos do dia bonito. Parou o carro na sombra do bosque e assim que fechou a porta, sentiu o empurrão, a mão grossa tapando sua boca, a joelhada nas costas, o corpo pesado prendendo o seu. Ouviu a respiração ofegante, respirou o hálito de bebida, escutou o "fica quieta". Começou a suar frio e a se sentir enjoada, as pernas fracas. Sangrou nos pulsos quando lutou contra as cordas que a imobilizaram, sangrou na boca quando ele amarrou a mordaça, bateu forte a cabeça quando perdeu o chão e foi jogada dentro do carro, sem chance. Foi trancada e ouviu passos, se afastando, cada vez mais longe. Depois só escutou o silêncio brutal de estar sozinha e sem voz. Ficou muito tempo assim, até que começou a distinguir os sons do lado de fora e a lembrar de tudo que tinha sido bom. Chorou só um pouquinho, pra não entupir o nariz.
Escureceu. Esfriou. Tentou se mexer, mas não conseguia controlar o medo, nem o corpo. Até que ouviu os passos de novo, o farfalhar do mato, as pisadas quebrando os galhos no chão, cada vez mais perto. Sentiu a garganta apertar e um tremor incontrolável. Fechou os olhos quando a luz da lanterna bateu no vidro da janela, e desejou enlouquecer antes de viver o que estava por vir. Ouviu chamarem seu nome, uma, duas vezes. Ouviu a porta do carro abrindo. Ouviu um soluço, e a voz do pai.
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