quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O menino e a maçã

Tinha acordado com a corda toda e levantou da cama num pulo. Trocou a calça do pijama por um short de brincar e enfiou a mesma camiseta do dia anterior, com aquela dificuldade de sempre na hora de passar pelas orelhas. Passou rapidinho no banheiro, fez um xixi impossível de segurar e desceu as escadas voando. Subiu novamente com os gritos da mãe de "Vai dar descarga lá no banheiro e lavar essas mãos que você não mora lá no chiqueiro com o porco!" 
- Tá bem, mãe!
- E vem tomar seu café antes de ir pro mato!
- Tá bem, mãe!
O café era gostoso, mas ele não tinha a menor fome de manhã, a não ser de aventura. Dessa ele tinha muita, o tempo todo. Sem fome mesmo e sob o olhar atento da mãe, comeu um pedaço de pão com manteiga e tomou um copo de leite. Beijou a mãe ainda com bigode branco e correu porta da cozinha afora.  Quase tropeçou em Fiel, seu cachorro vira-latas, que estava dormindo naquele solzinho da manhã que cachorro gosta de pegar todo dia cedinho. Fiel acordou com o susto, e saiu correndo atrás dele, já todo animado também.
Adorava aquela casa que o pai tinha comprado. O quintal não se acabava. Tinha um lago enorme e nenhum muro entre as casas dos vizinhos, que ficavam distantes umas das outras, longe o suficiente pra ninguém incomodar ninguém, e perto o suficiente para os meninos todos se conhecerem já. Tinha feito 5 amigos, mas hoje ele queria ficar sozinho.
Foi até a margem do lago e desamarrou o barquinho a remo. Entrou e disse pra Fiel ficar na margem, ele voltaria logo. Só queria mesmo passear um pouco e ver se conseguia pescar um peixinho qualquer pra mãe fritar pro almoço. O dia estava gostoso, o lago bem calminho, refletindo os pequenos montes e árvores à sua volta. A água brilhava com o sol ainda fraco e o silêncio era tudo o que ele conseguia ouvir.  Remou até o meio do lago e resolveu fincar ali uma pequena âncora, para sossegar e pescar. Preparou a isca e o anzol como havia aprendido, sempre com pena da minhoca, mas o peixe também ia acabar sendo comido, então estava tudo certo. A ele ninguém ia comer, ia morrer de morte natural, de velho, que nem o avô há pouco tempo atrás. Tinha aprendido a pescar com ele. Gostava muito do avô, e de pescar.
Fez um movimento bonito com a vara e a linha desenrolou para longe do barco. Ficou ali, quieto, esperando uma mordida. E aí, de repente, sentiu uma coisa bater nas suas costas e viu quando uma macã rolou para o fundo do barco. Uma maçã vinda de onde, se não havia nada, nada mesmo em volta dele? Chegou a ficar arrepiado enquanto escrutinava tudo em volta pra confirmar que não estava enganado.
Colocou a vara de pescar de lado e catou a maçã no fundo do barco. Reparou que havia um buraquinho nela.
- Deve ter sido um bichinho que fez esse buraquinho..., pensou. Pegou uma faca e cortou a maçã pra ver o bicho. E aí, viu que não tinha bicho nenhum, mas sim, um anel de diamantes. Foi nessa hora que ouviu um choro de menina. Então, do nada, ele viu uma ilha. Uma ilha inteira, totalmente nova. Destemido, deslizou o barco para a praia de onde ele achava que estava vindo o choro. Chegou bem perto, pulou na água e puxou o barco para a areia para não ter problema pra voltar.
Viu a menina sentada numa pedra, vestido de flor, as mãos entrelaçadas no colo, ombros caídos, bem tristinha mesmo. Aproximou-se devagar e pisou num galho sem querer, fazendo barulho. A menina se assustou, mas não muito, porque ele era também criança e ele parecia ser bem legal.
- Por que é que você está chorando? , perguntou.
- Eu perdi o anel de noivado da minha irmã..., ela disse.
- Eu encontrei. Estava dentro de uma maçã que eu não sei como foi parar dentro do meu barco hoje, bateu até nas minhas costas antes.
- Eu joguei a maçã fora! Porcaria de maçã com um buraquinho de bicho!
- Mas o anel estava dentro da maçã! Como que ele foi parar lá?
- Eu não sei... Minha irmã me deu o anel e me pediu para guardar para ela. Eu estava com fome e chateada porque vi um buraquinho de bicho na maçã. Quando eu fico nervosa acontecem coisas estranhas, mas eu não sei explicar... De qualquer forma, você me devolve o anel da minha irmã?
- Claro que sim! Toma. Mas posso ficar com a maçã?
- Sim, pode!
Se despediram e ele foi pegar o barco. Comeu a maçã enquanto voltava para casa e esqueceu de pegar peixe pro almoço. Quando chegou em casa a mãe brigou um pouquinho e ele foi se deitar. Adormeceu pensando na menina bonita.
Depois desse dia, toda manhã quando acorda, sente uma dorzinha na barriga. Pelo buraquinho do umbigo, puxa lá de dentro uma pedrinha de diamante. Depois o umbigo fecha de novo.  Quando tiver quinze anos e uma pilha de diamantes, vai voltar lá na ilha e pedir para se casar com a garota da maçã.

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