Quando fez 6 anos, a menina ganhou uma boneca de pano feita pela avó. Tinha olhos pretos de botão, cabelos de fios de lã, bochechas vermelhas pintadas com rouge, um vestido de feltro verde e sapatinhos listrados. Ficou sendo a sua melhor companhia, e pra todo lugar que ia, a menina carregava a boneca.
Elas moravam numa casa grande com um quintal cheio de árvores e frutas e perfumes de flor. Dormiam juntas e quando acordavam, ficavam um pouquinho na cama olhando para o teto. A mãe da menina tinha pregado nele todo tipo de coisas coloridas que voam e que fazem um barulhinho bom de vidrinhos batendo um no outro quando ventava. Era muito bonito de olhar e de escutar e, por isso, a menina e a boneca sempre levantavam da cama sorrindo.
Iam para o banheiro e a menina escovava os dentes e lavava o rosto. E penteava os cabelos, dela e da boneca. Todo dia fazia um penteado novo, e hoje estavam as duas de rabo de cavalo amarrados com laços de fita amarela. Estavam bem bonitas quando chegaram na cozinha para o café da manhã. A avó tinha feito polenta e a mãe tinha preparado o seu café com leite - nada era mais gostoso nesse mundo do que o café com leite preparado pela mãe. Comeu a polenta também, deu um pedacinho para a boneca, que não gostava de café com leite, e foram brincar no quintal.
Andaram até a beira do riacho e lá sentaram numa pedra fresquinha. A boneca ficou pensando que talvez fosse bom andar com as próprias pernas, assim como a menina, coisa que ela ainda não tinha entendido como fazer. Mas adorava andar carregada no colo, bem aconchegada, ou especialmente quando a menina corria e ela ia voando pendurada pela mão. Então acabava que se esquecia de aprender a andar por conta própria, e talvez por isso ainda não conseguisse.
Uma outra coisa que ela queria muito era aprender a falar. Porque queria poder dizer para a menina que ela queria algumas roupas novas. O vestido de feltro verde estava já um pouco gasto e era muito quente no verão. Mas também não tinha se esforçado ainda para aprender a falar. A menina falava com ela o tempo todo, ela entendia tudo, e quando a menina parava de falar, era porque estava dormindo ou porque tinha começado a correr de novo, então ficava difícil para a boneca ter uma oportunidade. Se a menina dormia, era hora de aconchego e se corria, era hora de aventura, então ela continuava calada e de vestido de feltro verde. Mas uma coisa ela fazia: um pouquinho antes de dormir, ela rezava para a fada das bonecas e pedia umas roupinhas novas. Isso ela fazia todas as noites.
A água do riacho estava muito bonita, cheia de brilhos. A menina tirou os sapatos e colocou os pés na água e disse que estava fresquinha. A boneca continuou lá com os seus sapatos listrados, e não entendia também porque não podia tomar banho. Mas nesse dia especial e inesquecível, a menina fez uma surpresa pra ela. Descalçou os seus sapatos e tirou o seu vestido verde. E de dentro de uma bolsinha, tirou o maiôzinho mais lindo do mundo, todo amarelo e com uma flor rosa na barriga e vestiu a boneca com ele. Ela ficou tão feliz e emocionada que jura que ouviu sua voz dizendo "Feliz!", mas não tem muita certeza se não foi só mesmo na sua cabeça de boneca. Ficaram lá as duas, pegando um solzinho da manhã e curtindo a vida. E a boneca, curtindo o seu maiôzinho amarelo.
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