sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Essa história

Marrom. Outra blusa marrom. Mas ficava muito bem de marrom. Sentia-se bonita. E decote. Gostava de decotes. E de cabelos cortados na altura do queixo. Nos olhos, sombra e luz. Na boca, um batom novo e vermelho.

Esperava o elevador com ansiedade. Voltara da viagem no dia anterior, mas só há duas horas ouvira a mensagem.

- Oi, sou eu. Estou com o seu presente. Vem me ver? Estou no escritório.

Percebeu a excitação na voz da amiga. Sentiu o coração pulsar mais intensamente. Ouviu mais e mais vezes o recado no curto trajeto entre o Leme e a Urca. "Vem me ver?", ecoava repetidas vezes por todos os cantos da sua cabeça.

Eram amigas desde sempre. Quando pequenas, eram vizinhas. Frequentaram a mesma escola, fizeram ballet juntas. Gostavam e desgostavam das mesmas comidas. Não se pareciam, mas eram iguais. Só brigaram uma vez na vida, quando uma delas começou a namorar e parou de querer ver a outra a toda hora. Mas logo o namoro terminou e passaram a fazer tudo juntas novamente. Até que chegou a época de escolher faculdade. Uma quis fazer cinema, outra quis cursar arquitetura. Uma ficou no Rio, outra foi para Minas Gerais. Cinco anos se vendo só nas férias e viajando juntas para todo lado.

Depois de formadas, uma abriu um escritório no Rio, e a outra foi fazer curso fora. E aí foram dois anos sem se ver de verdade. Um dia o curso acabou, e foi aí que começou essa história. 






Jonas

Jonas chegou cedo, puxou um cigarro, procurou um canto e fumou com certo prazer e um bocado de culpa. E medo. E pose. E esquecimento. Estava frio, difícil até pra segurar o cigarro. Ou luva ou frio, preferia o frio. A luva tirava o tato e podia se queimar.

Um avião cheio de gente e ela lá dentro. Chegando. A reunião ia ser rápida, os irmãos queriam a peça fazia tempo, ele finalmente tinha concordado em ceder, hoje era só entregar, receber e correr pro aeroporto para pegar o vôo de volta. Eles bem que podiam já ter chegado...

Depois do cigarro, uma bala de menta, mãos nos bolsos, uma caminhada à toa pra esquentar e viu o carro chegando. Os dois irmãos saltaram e acenaram para Jonas. Pediram que se aproximasse e ele foi falar com o mais velho primeiro. Sorriu meio sem gosto e apertou sua mão efusivamente. Um tapinha nas costas e já se virava para andar até o outro quando ouviu o tiro.

Marta respirou aliviada quando o avião começou a parquear. Começou a juntar suas coisas e arrumar o lixo todo num saco só. Ainda estava vendo um trecho de série quando o telefone tocou.

quinta-feira, 22 de março de 2018

Embarcada.

Perdera o equilíbrio há muito tempo atrás. Dez, quinze minutos? O atraso do trem abria um espaço que não sabia como preencher. A barra do casaco vermelho deixava entrever o brilho das botas pretas. Gostava disso.

Estava pensando muitas coisas diferentes, algumas se chocavam e disparavam a angústia da decisão e a culpa pela queda. O medo retrai, então a cura só podia vir de se entregar a respirar e relaxar e aceitar a confusão mental.

O trem chegou. Ela embarcou.

Carregou as malas e colocou num lugar seguro, para não ter surpresas durante a viagem. O lugar ao lado dela estava vazio, sentou na janela e olhou para fora. Entardecia e a estação não tinha nada de especial.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Como é ser casada com um Finlandês.

Onde é que a gente é igual e onde é que a gente é diferente?

Diferente: pessoa fica pelada com tranquilidade. O brasileiro não fica pelado à toa e essa é uma diferença. Uma diferença que aproxima e que intriga, que interessa. Porque a maneira como o finlandês se coloca pelado no mundo é uma maneira bem diferente da que o brasileiro se coloca semivestido no mundo. Brasileiro não fica pelado com tranquilidade na frente dos outros porque aqui dá problema ficar pelado. Vem polícia, vem todo mundo, uma confusão. Lá, família faz sauna todo mundo junto, pelado e sossegado.