sexta-feira, 14 de outubro de 2016
Escamas.
Não tinha um dia em que acordasse sem dor. Tinha 16 anos e não achava isso normal. Não tinha tido coragem de comentar com os pais. Não tinha tido coragem de comentar com ninguém. Depois do banho, do café, depois de andar até a escola e depois das primeiras duas horas sentado, ouvindo bláblabláblábláblábla, o corpo amortecia e parava de reclamar. Conseguia se levantar com facilidade para ir até a cantina e comprar um lanche. Conseguia comer. Conseguia ficar na escola até o meio-dia, caminhar de volta pra casa e sentar com a mãe para o almoço. Ela, sempre quieta, olhar perdido muito longe. Ele tentava adivinhar seus pensamentos, mas andava preocupado demais consigo mesmo para perguntar qualquer coisa. Passava a tarde estudando, ou jogando, ou vendo TV, sempre sozinho. À noite o pai chegava do trabalho e perguntava se estava tudo bem com ele. Respondia sempre que sim, o pai tinha olhos tristes, ele não queria piorar as coisas. Começava a suar frio quando se aproximava a hora de ir dormir. As dores começavam devagar, sentia as pernas latejarem, os braços ficavam pesados, as mãos ardiam. O aperto no peito começava, a garganta doía, os olhos lacrimejavam. De repente, bem forte, a grande dor explodia no meio das costas. Ele se encolhia, se esticava, se virava na cama, levantava com dificuldade, tentava controlar a respiração. Hoje, especialmente, a dor estava insuportável. Tentou ficar quieto, mas estava quase impossível suportar calado. Com os olhos salgados do suor que escorria pela testa, sem enxergar muito bem, se arrastou até o banheiro pra ver se encontrava algum analgésico forte. No corredor escuro, esbarrou em alguma coisa fria e viscosa. A tal coisa se movimentou e ele teve a impressão de ter visto uma criatura horrível, meio humana, meio lagarto, se afastando rapidamente. Assustado, viu que começava a alucinar, entrou no banheiro e fechou a porta com violência. Respirava com dificuldade, pela dor e pelo susto. Mas continuou tentando respirar e foi ficando mais calmo, devagar, mas sim, cada vez mais calmo e controlado. Pensou nos pais dormindo e se sentiu um pouco melhor. Pensou nos olhos perdidos da mãe, no sorriso triste do pai, e sentiu conforto em tê-los por perto. Respirou profundamente e esvaziou o peito com alívio. Foi então que se viu de relance no espelho e notou, pela primeira vez, o seu corpo coberto de escamas.
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