- Falei pra ela isso ontem. De novo. Já não aguento mais falar em vão. Mas tenho certeza de que a outra única coisa que me passa pela cabeça, que é sair fora, abandonar o barco, não vai adiantar também.
- Fica tranquila, ela vai acabar entendendo que você só quer o bem dela. Eu sei que é difícil, mas tenha paciência.
Eu não tinha mais paciência. Estava treinando as meninas para uma competição que ia acontecer em duas semanas e uma delas, a mais preparada fisicamente, era a mais despreparada emocionalmente. Não se enxergava. Não via que tinha corpo, potência, alongamento e técnica suficientes para ganhar o que quisesse, ou pelo menos para competir com alegria. Era insuportável não saber o que fazer nessa situação.
Catarina tinha 16 anos. Como é que se conserta autoestima de quem já tem 16 anos? O que é que pode acontecer para que uma moça tão bonita e talentosa fique assim tão insegura? Porque a minha reação já era de automaticamente ficar irritada, e isso não ia levar nós duas a lugar nenhum.
No ensaio seguinte, não sei exatamente o motivo, resolvi respirar. Respirar o tempo todo, concentrando toda minha atenção em mim mesma. Sem culpa. Sem futuro, sem passado, só respirando e observando a minha respiração. Catarina estava lá no meio, com as outras, ensaiando, e embora as palavras saíssem da minha boca, orientando as meninas, o que eu ouvia era uma voz abafada, como se eu estivesse falando debaixo d'água. E ouvia o som da minha respiração, sem parar, sem parar.
Nos encontros seguintes, fiz a mesma coisa. E lá pelo quarto ou quinto, algo diferente aconteceu. Eu me senti diferente, mais calma, mais forte, mais centrada, mais capaz, mais tranquila. Parei de tentar desesperadamente atingir algum tipo de sucesso exterior. Eu não precisava mais ajudar Catarina. Eu estava feliz comigo mesma. Olhei para ela e sorri, enquanto continuava concentrada na minha respiração. Ela, surpresa, sorriu de volta. E as coisas começaram a melhorar entre nós.
domingo, 31 de janeiro de 2016
quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
Beijos e bons sonhos.
Hoje vou de trechinho do livro de contos de novo, senão eu não aguento. Esse se chama "O homem e a bolsa" :)
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Beijos e bons sonhos.
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Andava enjoado já com tanta gente dizendo que
ele deveria mudar de emprego. Estavam certos por um lado, já que ele mesmo
reclamava bastante da solidão de trabalhar à noite. O salário também não era
bom. O lugar era distante do centro, ele tinha que ir de ônibus, fazer uma
baldeação na metade do caminho, depois andar durante 20 minutos e sempre
sozinho, e sempre no escuro. Mas quando chegava - e isso ele não contava para
ninguém - custava muito a querer sair de lá e voltar para casa. João tinha um
segredo.
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Beijos e bons sonhos.
terça-feira, 26 de janeiro de 2016
Talvez possamos aprender com eles a sermos mais calmos.
- É tartaruga não, é jabuti.
- Eu prefiro tartaruga!
O preferidor tem 4 anos e foi visitar a Moleque de ideias hoje pela primeira vez. Ficou fascinado quando viu os jabutis e começou a fazer perguntas. Fomos lá perto. Colhi umas folhas de amora num galinho e ele segurou o galho pela pontinha e adorou ajudar e ver a tartaruga comer tudo. (Eu também devo confessar que sei muito bem que os nossos são jabutis, já li e já entendi tudo, mas juro que ainda prefiro chamar de tartaruga...)
E hoje, lendo pra aprender mais, descobri que esses bichos cascudos vivem aqui no planeta desde o período Triássico - de 250 a 200 milhões de anos atrás, quando a terra ainda era Pangeia, um continente só. Aguentaram divisão de continentes e pelo menos DUAS grandes extinções em massa e estão aí, tranquilos, comendo suas folhinhas de amora (Bom, pelo menos enquanto a extinção em curso provocada por nós não liquida com a raça deles - e com a nossa.) Já nós, Homo sapiens, somos beeeem mais novos e inexperientes, surgimos somente há 190 mil anos atrás. Vai ver que é por isso que ainda fazemos tanta besteira.
Ou seja, meu amiguinho novo querido, há que respeitar os jabutis. E as tartarugas. Eles estão aí há muito mais tempo que a gente. Talvez possamos aprender com eles a sermos mais calmos.
- Eu prefiro tartaruga!
O preferidor tem 4 anos e foi visitar a Moleque de ideias hoje pela primeira vez. Ficou fascinado quando viu os jabutis e começou a fazer perguntas. Fomos lá perto. Colhi umas folhas de amora num galinho e ele segurou o galho pela pontinha e adorou ajudar e ver a tartaruga comer tudo. (Eu também devo confessar que sei muito bem que os nossos são jabutis, já li e já entendi tudo, mas juro que ainda prefiro chamar de tartaruga...)
E hoje, lendo pra aprender mais, descobri que esses bichos cascudos vivem aqui no planeta desde o período Triássico - de 250 a 200 milhões de anos atrás, quando a terra ainda era Pangeia, um continente só. Aguentaram divisão de continentes e pelo menos DUAS grandes extinções em massa e estão aí, tranquilos, comendo suas folhinhas de amora (Bom, pelo menos enquanto a extinção em curso provocada por nós não liquida com a raça deles - e com a nossa.) Já nós, Homo sapiens, somos beeeem mais novos e inexperientes, surgimos somente há 190 mil anos atrás. Vai ver que é por isso que ainda fazemos tanta besteira.
Ou seja, meu amiguinho novo querido, há que respeitar os jabutis. E as tartarugas. Eles estão aí há muito mais tempo que a gente. Talvez possamos aprender com eles a sermos mais calmos.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
O final é de arrepiar.
Gente, mais um trechinho de um outro conto desses que estou escrevendo pro concurso. Chama-se "A mulher e a chave".
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Hoje estava se sentindo um pouco
cansada e resolveu parar de andar para lá e para cá ruminando memórias e
pensamentos variados. Achou um banco solitário, na sombra e de frente para a
igreja lá no alto e lá no fim da praça. Sentou e se mexeu um pouco até achar
uma posição confortável. Abriu a bolsa e de lá tirou o sanduíche do dia.
Desembrulhou com calma e ficou feliz quando deu a primeira mordida, sempre a
mais gostosa. Ela se sentiu bem satisfeita.
De repente notou, entre umas pedras à
sua frente, o que parecia ser uma chave. Grande, ainda vermelha em algumas
partes, parecendo antiga. Limpou o canto da boca com as costas da mão e colocou
o sanduíche sobre a bolsa. Foi lá perto pegar a chave.
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Esse texto foi interessante de escrever. Comecei há alguns dias atrás e aí lá pelo meio deu aquele branco. Deixei quieto. Hoje voltei a escrever e ele veio todinho, se desenrolando. E, vou contar uma coisa: quando acabei liguei até pra minha filha porque precisava falar com alguém. O final é de arrepiar.
domingo, 24 de janeiro de 2016
Vamos ver. :)
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"A menina gostou de poder ter visto uma coisa impressionante no céu também, mesmo que a da avó tenha sido de verdade e a dela só de sonho e desejo.
Mais de cinquenta anos haviam se passado e ela passava o final da manhã na varanda de casa. Tinha uma roupa para remendar no colo, mas foi se sentindo cada vez mais relaxada e parou de costurar. Começou a lembrar e viu que ainda conseguia ver todos os detalhes dos planetas. Muitas vezes, usava a imagem para adormecer sem dormir. Ouvia cada vez mais fraca a voz da própria neta, que brincava no jardim.
- Sai sapo! Vai palá! Os sapinho cresce muito rápido!
Adorava o jardim da avó.
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Trechinho do segundo conto pro concurso. Vamos ver. :)
"A menina gostou de poder ter visto uma coisa impressionante no céu também, mesmo que a da avó tenha sido de verdade e a dela só de sonho e desejo.
Mais de cinquenta anos haviam se passado e ela passava o final da manhã na varanda de casa. Tinha uma roupa para remendar no colo, mas foi se sentindo cada vez mais relaxada e parou de costurar. Começou a lembrar e viu que ainda conseguia ver todos os detalhes dos planetas. Muitas vezes, usava a imagem para adormecer sem dormir. Ouvia cada vez mais fraca a voz da própria neta, que brincava no jardim.
- Sai sapo! Vai palá! Os sapinho cresce muito rápido!
Adorava o jardim da avó.
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Trechinho do segundo conto pro concurso. Vamos ver. :)
Começou a chorar compulsivamente.
Desceu as escadas da porta para a rua levantando a gola do casaco. O vento estava forte e gelado, mas hoje ele tinha um encontro importante e não dava pra simplesmente ficar na cama o dia inteiro, como tinha feito nos últimos 15 dias. Queria revê-la. Conversariam e quem sabe ele conseguiria fazer com que ela esquecesse o último encontro e o que tinha acontecido lá. Tinha tudo sido uma grande confusão e agora, com todas as pessoas envolvidas tendo tido um tempo para esfriar a cabeça, ele tinha uma nova chance para se explicar.
Caminhava rápido, e dobrou a esquina aliviado, dando um corte no vento. Viu a dona do café da esquina abrindo a porta e achou que era uma boa ter uma bebida quente nas mãos e na boca. Ouviu o sino da porta balançar quando entrou. A fumaça do café saindo por detrás do balcão tornava o pequeno espaço ainda mais aconchegante. Ficou olhando a vitrine de bolos e tortas enquanto preparavam a sua bebida. Comprou um bolinho de frutas para ela. Saiu de lá com mais disposição para enfrentar o frio.
Em 20 minutos estava na porta. Tocou o interfone, não obteve resposta, mas ainda tinha consigo as chaves extras. Abriu o portão, subiu as escadas até o apartamento, bateu e esperou. Nada. Usou sua chave e abriu a porta devagar. Andou pelo apartamento e concluiu que ela não estava. Resolveu sentar-se e esperar, ela devia ter ido perto, porque sua carteira e o celular estavam sobre a mesinha de centro. Colocou o pacote com o bolinho ali, para que ela visse logo ao chegar.
Esperou duas horas inteiras, até que ouviu passos subindo as escadas. Havia deixado a porta entreaberta, para que ela não se assustasse ao vê-lo dentro de casa. Sentiu a mão pesada do policial nas suas costas e ouviu que estava sendo preso como suspeito principal da morte de Ana.
- Mas não fui eu, eu vim aqui explicar isso para ela.
- Ela, quem?, perguntou o policial.
- Minha namorada, a que mora aqui neste apartamento. Daqui a pouco ela chega e vamos conversar.
- Sua namorada, Ana, está morta. O senhor é suspeito de tê-la matado há 15 dias atrás.
Começou a chorar compulsivamente.
Caminhava rápido, e dobrou a esquina aliviado, dando um corte no vento. Viu a dona do café da esquina abrindo a porta e achou que era uma boa ter uma bebida quente nas mãos e na boca. Ouviu o sino da porta balançar quando entrou. A fumaça do café saindo por detrás do balcão tornava o pequeno espaço ainda mais aconchegante. Ficou olhando a vitrine de bolos e tortas enquanto preparavam a sua bebida. Comprou um bolinho de frutas para ela. Saiu de lá com mais disposição para enfrentar o frio.
Em 20 minutos estava na porta. Tocou o interfone, não obteve resposta, mas ainda tinha consigo as chaves extras. Abriu o portão, subiu as escadas até o apartamento, bateu e esperou. Nada. Usou sua chave e abriu a porta devagar. Andou pelo apartamento e concluiu que ela não estava. Resolveu sentar-se e esperar, ela devia ter ido perto, porque sua carteira e o celular estavam sobre a mesinha de centro. Colocou o pacote com o bolinho ali, para que ela visse logo ao chegar.
Esperou duas horas inteiras, até que ouviu passos subindo as escadas. Havia deixado a porta entreaberta, para que ela não se assustasse ao vê-lo dentro de casa. Sentiu a mão pesada do policial nas suas costas e ouviu que estava sendo preso como suspeito principal da morte de Ana.
- Mas não fui eu, eu vim aqui explicar isso para ela.
- Ela, quem?, perguntou o policial.
- Minha namorada, a que mora aqui neste apartamento. Daqui a pouco ela chega e vamos conversar.
- Sua namorada, Ana, está morta. O senhor é suspeito de tê-la matado há 15 dias atrás.
Começou a chorar compulsivamente.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2016
Estou satisfeita.
Às vezes duvidava que estivesse no caminho certo. Mas tinha um medidor: se estivesse satisfeita, era um bom sinal. Se as pessoas em volta estivessem satisfeitas, era um sinal melhor ainda. E isso bastava para que ela continuasse caminhando.
Beijos para todos, o jardim da Moleque de ideias está muito lindo. Estou satisfeita.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2016
... até ele se estranhava sem eles.
Amanda era baixinha e gorducha. Usava óculos desde sempre, até ela se estranhava sem eles. Estava com o cabelo grande demais pra sua altura, mas não cortava de jeito nenhum: Amanda tinha um namorado que gostava de mulher de cabelo grande e ele gostava do cabelo de Amanda.
Tinha começado a trabalhar numa livraria há 2 meses e até hoje tinha atendido três clientes. Fregueses, na verdade. Só tinha atendido os três, mas muitas vezes cada um deles. Pedro, o mais velho, gostava de ler História. João, no auge dos trinta anos, gostava de novela policial e livros mais picantes, digamos assim. E Rafael era um menino de 10 anos, mas ela nunca tinha visto alguém gostar tanto de ler como ele. Gostava principalmente dos livros para crianças, mas também gostava de livros sobre viagens, esporte, animais, matemática, astronomia... era uma coisa, o Rafael. Passava horas na livraria, quieto, passeando entre as estantes ou sentado em algum canto, lendo.
Já Amanda, ela não gostava de ler. Amanda gostava de escrever. E começou a escrever uma história sobre um menino que gostava de ler e que se chamava Rafael e que vivia toda hora na livraria onde ela trabalhava.
A história de Amanda começava assim:
"Rafael era baixinho e gorducho. Usava óculos desde sempre, até ele se estranhava sem eles."
Tinha começado a trabalhar numa livraria há 2 meses e até hoje tinha atendido três clientes. Fregueses, na verdade. Só tinha atendido os três, mas muitas vezes cada um deles. Pedro, o mais velho, gostava de ler História. João, no auge dos trinta anos, gostava de novela policial e livros mais picantes, digamos assim. E Rafael era um menino de 10 anos, mas ela nunca tinha visto alguém gostar tanto de ler como ele. Gostava principalmente dos livros para crianças, mas também gostava de livros sobre viagens, esporte, animais, matemática, astronomia... era uma coisa, o Rafael. Passava horas na livraria, quieto, passeando entre as estantes ou sentado em algum canto, lendo.
Já Amanda, ela não gostava de ler. Amanda gostava de escrever. E começou a escrever uma história sobre um menino que gostava de ler e que se chamava Rafael e que vivia toda hora na livraria onde ela trabalhava.
A história de Amanda começava assim:
"Rafael era baixinho e gorducho. Usava óculos desde sempre, até ele se estranhava sem eles."
quarta-feira, 20 de janeiro de 2016
O humor de Pedra melhorou um pouquinho.
- Pedra Preta é sempre assim. Não tem como a gente agradar.
Pedra Preta era o nome de um indiozinho desses do jeito que a gente aprende na escola. Barrigudinho, urucum no rosto, franja e cabelo reto preto, shortinho e sandália havaiana.
Nesse dia ele acordou mal-humorado. Pior do que o de costume. Assim mesmo correu pra fora da oca em direção ao rio, onde havia guardado uma surpresa para a sua irmã. Iara tinha 13 anos e ia se casar. Pedra queria dar a ela um presente especial.
No dia anterior, tinha passado a tarde brincando no rio, e depois de muito mergulhar e tentar fisgar uns peixinhos, viu um canto de areia que brilhava diferente. Pegou um punhado com a mão, adorando a sensação da areia encharcada de água fresca. Esperou secar um pouco e viu que se fosse deixando escorrer entre os dedos, sobravam umas pedrinhas douradas que ele tinha certeza de que a irmã ia gostar.
Ouviu o grito da mãe chamando e assustou-se. Deixou cair tudo na água e aborrecido, resignou-se a voltar para a aldeia. Depois que os homens brancos tinham dado essas sandálias para eles, dar chinelada em curumim abusado tinha virado moda. Queria evitar. Teria que voltar no dia seguinte para buscar o presente de Iara. E logo no último dia em que ia ter a irmã só para ele. Por isso a correria e o mau humor de hoje.
Quando chegou no rio, de longe viu de novo o brilho amarelo das pedrinhas. Foi até lá ouvindo o barulho das pernas mexendo a água, ai que delícia esse rio, ele achava. Tinha levado um saquinho de plástico que guardava desde que achou voando na floresta. Usou pra colocar as pedrinhas que conseguiu separar da areia fina. Correu de volta pra oca, e foi esconder o presente da irmã.
No fim da tarde, juntaram o povo no meio da aldeia para a festa do casamento. Pedra estava agitado, a irmã não ia mais voltar para casa, ia morar com aquele índio feioso com cara de mau, que já tinha puxado as orelhas dele umas mil vezes.
- Pedra Preta é sempre assim. Não tem como a gente agradar., dizia o índio quando ele, furioso, saía chorando pra se consolar sozinho.
De repente viu a irmã. Bonita mais ainda, enfeitada, com pinturas novas no corpo e cara de séria. Pedra sentiu um aperto no peito que voltou algumas vezes enquanto a cerimônia se realizava. No final, beberam cauim, menos ele e os da idade dele, pequenos demais para isso.
Chegou perto da irmã e abraçou as pernas dela. Ela mexeu no cabelo de Pedra com aquelas mãos lindas dela. Pedra sentiu seu cheiro e chorou um pouquinho. Olhou pra cima, pros olhos dela, e deu o saquinho de pedrinhas brilhantes para a irmã querida.
Ela gostou. Se abaixou, olhou Pedra nos olhos e disse:
- Iara gosta muito de você Pedra Preta. Gosto também das pedrinhas amarelas que você achou para mim.
Sorriu e bagunçou o cabelo dele de novo. O humor de Pedra melhorou um pouquinho.
Pedra Preta era o nome de um indiozinho desses do jeito que a gente aprende na escola. Barrigudinho, urucum no rosto, franja e cabelo reto preto, shortinho e sandália havaiana.
Nesse dia ele acordou mal-humorado. Pior do que o de costume. Assim mesmo correu pra fora da oca em direção ao rio, onde havia guardado uma surpresa para a sua irmã. Iara tinha 13 anos e ia se casar. Pedra queria dar a ela um presente especial.
No dia anterior, tinha passado a tarde brincando no rio, e depois de muito mergulhar e tentar fisgar uns peixinhos, viu um canto de areia que brilhava diferente. Pegou um punhado com a mão, adorando a sensação da areia encharcada de água fresca. Esperou secar um pouco e viu que se fosse deixando escorrer entre os dedos, sobravam umas pedrinhas douradas que ele tinha certeza de que a irmã ia gostar.
Ouviu o grito da mãe chamando e assustou-se. Deixou cair tudo na água e aborrecido, resignou-se a voltar para a aldeia. Depois que os homens brancos tinham dado essas sandálias para eles, dar chinelada em curumim abusado tinha virado moda. Queria evitar. Teria que voltar no dia seguinte para buscar o presente de Iara. E logo no último dia em que ia ter a irmã só para ele. Por isso a correria e o mau humor de hoje.
Quando chegou no rio, de longe viu de novo o brilho amarelo das pedrinhas. Foi até lá ouvindo o barulho das pernas mexendo a água, ai que delícia esse rio, ele achava. Tinha levado um saquinho de plástico que guardava desde que achou voando na floresta. Usou pra colocar as pedrinhas que conseguiu separar da areia fina. Correu de volta pra oca, e foi esconder o presente da irmã.
No fim da tarde, juntaram o povo no meio da aldeia para a festa do casamento. Pedra estava agitado, a irmã não ia mais voltar para casa, ia morar com aquele índio feioso com cara de mau, que já tinha puxado as orelhas dele umas mil vezes.
- Pedra Preta é sempre assim. Não tem como a gente agradar., dizia o índio quando ele, furioso, saía chorando pra se consolar sozinho.
De repente viu a irmã. Bonita mais ainda, enfeitada, com pinturas novas no corpo e cara de séria. Pedra sentiu um aperto no peito que voltou algumas vezes enquanto a cerimônia se realizava. No final, beberam cauim, menos ele e os da idade dele, pequenos demais para isso.
Chegou perto da irmã e abraçou as pernas dela. Ela mexeu no cabelo de Pedra com aquelas mãos lindas dela. Pedra sentiu seu cheiro e chorou um pouquinho. Olhou pra cima, pros olhos dela, e deu o saquinho de pedrinhas brilhantes para a irmã querida.
Ela gostou. Se abaixou, olhou Pedra nos olhos e disse:
- Iara gosta muito de você Pedra Preta. Gosto também das pedrinhas amarelas que você achou para mim.
Sorriu e bagunçou o cabelo dele de novo. O humor de Pedra melhorou um pouquinho.
terça-feira, 19 de janeiro de 2016
Ele veio.
- Ah, mas vem aqui só um pouquinho!
Tinha conseguido fazer o telhado de bertalhas e queria mostrar para alguém. Incrível como cresceram rápido, como gostaram desse verão abençoado de muito calor sim, mas de muita chuva também. Chuva de verão, a melhor que existe. Lembrou de um dia no parque, quando no fim de uma tarde passeando com o namorado, caiu uma chuvona dessas. Um monte de pingo gigante na temperatura ideal. Tudo quanto foi planta ficou feliz que nem ela, e o cheiro de chuva subiu forte. Uma delícia de lembrar e de viver sempre que pode. Tem verão que é só quente e seco, esse ninguém merece. Muita poeira. Verão tem que ser que nem esse, de sol e chuva.
Mas, voltando à bertalha, a planta preferida dela. Bertalha cresce. Muito. Rápido. Muito rápido. É impressionante. E as folhas tem pequenininhazinha e pequena e média e maiorzinha e grande e grandona e imensa. Tem tudo. E você pode comer. Ela gostava refogadinha com ovo abafado ou na sopa. E gostava muito.
Quando era pequena tinha um dia ido passar roupa de brincadeira no quartinho lá de trás da casa da avó. No caminho, um tendal de bertalhas, ela passando em baixo com o ferrinho de passar na cabeça quando - PAF! Caiu tendal de madeira velha e bertalhada tudo em cima dela, que ficou lá estendida no chão ouvindo o alvoroço dos adultos até ser salva pelo avô, sempre forte e atlético. Ganhou carinho, chorou pouquinho, foi levada no médico pra ver se estava tudo certinho e acabou ganhando um dia de folga na escola, um monte de revistinha e uma boneca nova.
E hoje ela estava orgulhosa da sua ideia de telhado de bertalha onde antes criava as abelhas ter dado certo.
- Vem amor, vem ver o telhadinho como está lindo!
Ele veio.
Tinha conseguido fazer o telhado de bertalhas e queria mostrar para alguém. Incrível como cresceram rápido, como gostaram desse verão abençoado de muito calor sim, mas de muita chuva também. Chuva de verão, a melhor que existe. Lembrou de um dia no parque, quando no fim de uma tarde passeando com o namorado, caiu uma chuvona dessas. Um monte de pingo gigante na temperatura ideal. Tudo quanto foi planta ficou feliz que nem ela, e o cheiro de chuva subiu forte. Uma delícia de lembrar e de viver sempre que pode. Tem verão que é só quente e seco, esse ninguém merece. Muita poeira. Verão tem que ser que nem esse, de sol e chuva.
Mas, voltando à bertalha, a planta preferida dela. Bertalha cresce. Muito. Rápido. Muito rápido. É impressionante. E as folhas tem pequenininhazinha e pequena e média e maiorzinha e grande e grandona e imensa. Tem tudo. E você pode comer. Ela gostava refogadinha com ovo abafado ou na sopa. E gostava muito.
Quando era pequena tinha um dia ido passar roupa de brincadeira no quartinho lá de trás da casa da avó. No caminho, um tendal de bertalhas, ela passando em baixo com o ferrinho de passar na cabeça quando - PAF! Caiu tendal de madeira velha e bertalhada tudo em cima dela, que ficou lá estendida no chão ouvindo o alvoroço dos adultos até ser salva pelo avô, sempre forte e atlético. Ganhou carinho, chorou pouquinho, foi levada no médico pra ver se estava tudo certinho e acabou ganhando um dia de folga na escola, um monte de revistinha e uma boneca nova.
E hoje ela estava orgulhosa da sua ideia de telhado de bertalha onde antes criava as abelhas ter dado certo.
- Vem amor, vem ver o telhadinho como está lindo!
Ele veio.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2016
Muitos beijos para vocês. E muito obrigada.
Gente que me lê,
ontem resolvi participar de um concurso de literatura e aí vou ter que escrever uns 30 contos inéditos até dia 12 de fevereiro (só posso publicar uma parte mínima). Ontem escrevi dois, um pro concurso, outro inteiro pro blog, mas hoje não aguentei escrever dois, fiquei com preguiça e quero ver um filmezinho antes de dormir. Pra você não ficarem sem nada, vai aqui um trechinho do que escrevi ontem pro concurso:
"A ele ninguém ia comer, ia morrer de morte natural, de velho, que nem o avô há pouco tempo atrás. Tinha aprendido a pescar com ele. Gostava dele, e de pescar. Fez um movimento bonito com a vara e a linha desenrolou bem para longe do barco. Ficou ali, quieto, esperando uma mordida. E aí, de repente, sentiu uma coisa bater nas suas costas e viu quando uma maçã rolou para o fundo do barco. Uma maçã vinda de onde, se não havia nada, nada mesmo em volta?"
Chama-se "O menino e a maçã."
Muitos beijos para vocês. E muito obrigada.
domingo, 17 de janeiro de 2016
Os dois gostavam muito.
- Não, não, não, não e não!
- Mas é só hoje, por favor, só hoje!
- Meu Deus do Céu, quantas vezes eu vou ter que repetir! Não!
Ficou em silêncio por alguns instantes, mas logo insistiu:
- Mas mãe, por favor, eu to pedindo, eu vou me comportar, eu não vou perturbar ninguém, eu quero ir com você para o trabalho, por favor, mãe!
- Mas eu já disse que não posso! Como é que eu vou enfiar você dentro de uma cabine de avião comercial? Só tem lugar pra dois, você por acaso é copiloto?
Acabou aceitando o limite. Tinha inveja dos amigos que iam com as mães pro escritório ou pra escola onde trabalhavam. Sentia falta dela quando voltava para casa e ela ainda não tinha chegado. Ela era muito bonita, feminina, e muito doce. E tinha nascido com esse desejo de voar. E não tinha sido nada fácil pra ela. Já tinha ouvido muitas conversas sobre todo preconceito que ela tinha enfrentado: mulher é "... mais maluca", "... mais burra", "... mais instável emocionalmente". Mas a mãe tinha tirado de letra, com perseverança e sorriso cativante.
Olhando pro filho, naquele momento, ela se deu conta de que tinha se esquecido desse detalhe: dá para ser piloto de avião, mas não dá pra levar o filho pro trabalho.
- Mãe, a gente faz assim: você me leva pra viajar nesse avião, eu vou de passageiro e de vez em quando, se puder, eu vou lá na cabine ficar com você.
Suspirou e disse não mais uma vez. Voou sem o filho. No retorno, prometeu a ele que quando fizesse 14 anos, iria matriculá-lo na escola de cadetes da aeronáutica. Que ele iria aprender a pilotar e que aí sim estariam sempre juntos.
Mas ele não quis. Cresceu e quis ser bailarino. Enfrentou muito preconceito, mas tirou de letra, com perseverança e seriedade. Sempre que podia, levava a mãe pro trabalho com ele. Os dois gostavam muito.
- Mas é só hoje, por favor, só hoje!
- Meu Deus do Céu, quantas vezes eu vou ter que repetir! Não!
Ficou em silêncio por alguns instantes, mas logo insistiu:
- Mas mãe, por favor, eu to pedindo, eu vou me comportar, eu não vou perturbar ninguém, eu quero ir com você para o trabalho, por favor, mãe!
- Mas eu já disse que não posso! Como é que eu vou enfiar você dentro de uma cabine de avião comercial? Só tem lugar pra dois, você por acaso é copiloto?
Acabou aceitando o limite. Tinha inveja dos amigos que iam com as mães pro escritório ou pra escola onde trabalhavam. Sentia falta dela quando voltava para casa e ela ainda não tinha chegado. Ela era muito bonita, feminina, e muito doce. E tinha nascido com esse desejo de voar. E não tinha sido nada fácil pra ela. Já tinha ouvido muitas conversas sobre todo preconceito que ela tinha enfrentado: mulher é "... mais maluca", "... mais burra", "... mais instável emocionalmente". Mas a mãe tinha tirado de letra, com perseverança e sorriso cativante.
Olhando pro filho, naquele momento, ela se deu conta de que tinha se esquecido desse detalhe: dá para ser piloto de avião, mas não dá pra levar o filho pro trabalho.
- Mãe, a gente faz assim: você me leva pra viajar nesse avião, eu vou de passageiro e de vez em quando, se puder, eu vou lá na cabine ficar com você.
Suspirou e disse não mais uma vez. Voou sem o filho. No retorno, prometeu a ele que quando fizesse 14 anos, iria matriculá-lo na escola de cadetes da aeronáutica. Que ele iria aprender a pilotar e que aí sim estariam sempre juntos.
Mas ele não quis. Cresceu e quis ser bailarino. Enfrentou muito preconceito, mas tirou de letra, com perseverança e seriedade. Sempre que podia, levava a mãe pro trabalho com ele. Os dois gostavam muito.
sábado, 16 de janeiro de 2016
Foi bonita a manhã deles assistindo o filme juntos.
Os dois tinham vivido a infância na mesma época. Roupas feitas em casa
ou na costureira, tudo que era de plástico era bonito e revolucionário,
os homens cogitavam a possibilidade de chegar à Lua. A diferença foi que
ela viveu o verão e ele o inverno. Foi legal assistirem o "Minha vida
de cachorro" juntos. Falado em sueco, retrata muito bem ( de acordo com
ele ), a vida na Suécia no início dos anos 60. Pra ela, foi emocionante
ver os meninos do filme lidando com o frio, roupas, casacos, gorros,
luvas, e pensar nele pequeno vivendo aquelas coisas. Ela se lembra é de
ter sido ensinada a ter cuidado com o calor. Foi bonita a manhã deles
assistindo o filme juntos.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
Agora, de revolta, vou ver um filme.
Eu hoje escrevi um texto ótimo mas eu acabei apertando alguma tecla de bobeira e perdi meu texto. Fiquei com preguiça de repetir hoje, vou escrever de novo amanhã. Ou talvez nunca mais, porque muda o dia, muda o espírito. Vamos ver. Agora, de revolta, vou ver um filme.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2016
... para passear nos seus sonhos.
Os três eram amigos desde sempre. Ou pelo menos, já não se lembravam de existir vida antes de se conhecerem. Moravam no mesmo prédio e estudavam na mesma escola. Os pais eram amigos também, então, muitas vezes, haviam passado as férias juntos. Inseparáveis.
Até que conheceram a garota da motocicleta. João ficou apaixonado de cara; Paulo, mais nerd, fingiu que nem tinha notado, mas de noite dormia sonhando com ela; Fred cismou que ia conquistá-la antes dos outros.
- Mas e João, Frederico? João tá gostando dela, deixa de ser egoísta. Você nem curtiu ela de verdade!
- João é doido. Ele não gostou dela mais do que gosta de qualquer coisa que olhe pra ele por mais de um minuto. Pode ser até macaco de zoológico, João vai achar que tá apaixonado. Ele é doente, você sabe disso!, falou rindo e abraçou o amigo que riu também, obrigado a concordar.
Paulo deixou pra lá. Não era babá de João. E ele mesmo não se incomodava com o interesse de Fred. Para ele, sonhar com ela já estava de bom tamanho. Não precisava de nada além disso. Achava até que se chegasse mesmo perto da garota ia ter um ataque de gagueira ou coisa parecida. Nunca tinha chegado perto de mulher.
Laura sabia que era bonita. Assim como Fred, gostava de conquistar. Ficaram juntos na primeira vez que ele chegou a menos de um metro da motocicleta. Nem se pode dizer quem conquistou quem. Passaram três dias agarrados rodando pra todo lugar e trocando beijos e carinhos sem se importarem com o público.
Mas conquistadores enjoam rápido. Laura começou a preferir o olhar apaixonado de João e largou de andar com Fred. Mas achou João chatíssimo, ela não podia fazer nada que ele achava tudo lindo e ficava olhando pra ela meio com cara de bobo o tempo todo. E aí, sobrou Paulo, que não ligava a mínima para ela, pelo menos aparentemente. Ele nunca falou com ela, por mais que ela se esforçasse.
Ficou tão revoltada com o desprezo dele que quis mudar de escola e de cidade. Um dia foi embora e nunca mais voltou. Hoje, muitos anos depois, não se lembra mais de Fred e de João. Mas Paulo ela nunca esqueceu, o nerd quietinho. Alguma coisa faz com que a memória que tem dele não se apague.
Paulo também nunca esqueceu a garota da motocicleta. Desde então e até hoje, toda noite, depois que se deita e fecha os seus olhos, vai buscar Laura para passear nos seus sonhos.
Até que conheceram a garota da motocicleta. João ficou apaixonado de cara; Paulo, mais nerd, fingiu que nem tinha notado, mas de noite dormia sonhando com ela; Fred cismou que ia conquistá-la antes dos outros.
- Mas e João, Frederico? João tá gostando dela, deixa de ser egoísta. Você nem curtiu ela de verdade!
- João é doido. Ele não gostou dela mais do que gosta de qualquer coisa que olhe pra ele por mais de um minuto. Pode ser até macaco de zoológico, João vai achar que tá apaixonado. Ele é doente, você sabe disso!, falou rindo e abraçou o amigo que riu também, obrigado a concordar.
Paulo deixou pra lá. Não era babá de João. E ele mesmo não se incomodava com o interesse de Fred. Para ele, sonhar com ela já estava de bom tamanho. Não precisava de nada além disso. Achava até que se chegasse mesmo perto da garota ia ter um ataque de gagueira ou coisa parecida. Nunca tinha chegado perto de mulher.
Laura sabia que era bonita. Assim como Fred, gostava de conquistar. Ficaram juntos na primeira vez que ele chegou a menos de um metro da motocicleta. Nem se pode dizer quem conquistou quem. Passaram três dias agarrados rodando pra todo lugar e trocando beijos e carinhos sem se importarem com o público.
Mas conquistadores enjoam rápido. Laura começou a preferir o olhar apaixonado de João e largou de andar com Fred. Mas achou João chatíssimo, ela não podia fazer nada que ele achava tudo lindo e ficava olhando pra ela meio com cara de bobo o tempo todo. E aí, sobrou Paulo, que não ligava a mínima para ela, pelo menos aparentemente. Ele nunca falou com ela, por mais que ela se esforçasse.
Ficou tão revoltada com o desprezo dele que quis mudar de escola e de cidade. Um dia foi embora e nunca mais voltou. Hoje, muitos anos depois, não se lembra mais de Fred e de João. Mas Paulo ela nunca esqueceu, o nerd quietinho. Alguma coisa faz com que a memória que tem dele não se apague.
Paulo também nunca esqueceu a garota da motocicleta. Desde então e até hoje, toda noite, depois que se deita e fecha os seus olhos, vai buscar Laura para passear nos seus sonhos.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2016
... e vai muito bem, obrigada.
Minha memória de infância mais remota é de um sapo verde que ganhei. Ou talvez seja a de quando eu andava pela sala onde estavam vários adultos, eu falava com todos, mas ninguém me entendia, só a minha mãe. Nesta mesma época eu gostava de couve-flor e para expressar que eu queria comer couve-flor eu respirava forte fazendo barulho, pra dentro e pra fora, bem rápido. E quando eu queria bala eu dizia dabalabalê. E uma vez, quando uma amiga da minha mãe perguntou se eu estava de luto porque minhas unhas estavam pretas de terra, eu disse que sim; ela perguntou: - Quem morreu?, eu disse: - Mamãe. Graças a Deus, mamãe está viva até hoje, e vai muito bem, obrigada.
terça-feira, 12 de janeiro de 2016
O dia estava estranho, escuro, chuva fina.
O dia tinha começado estranho, escuro, chuva fina, ao invés do sol escaldante e céu azul sem nuvens das últimas semanas. Além disso, custou muito a amanhecer. Horas e horas no escuro, luzes acesas dentro de casa, o relógio mostrando 9 horas da manhã e o dia com aquela cara de 4 e meia. Estranho, mesmo. Procurou notícias, mas reparou que estava sem conexão. Televisão e rádio não tinha há muito tempo, totalmente satisfeito com o que conseguia na rede. Enfim, acreditou que ia dar tudo certo e depois do banho e do café, foi pegar o carro para ir para o trabalho.
Quando abriu a porta de casa, ficou aterrorizado. Seu carro não estava na garagem e a garagem também não estava mais lá. Nada estava mais lá. Muro, quintal, rua, as casas dos vizinhos, tudo havia desaparecido. Quis voltar para casa para tornar a sair e conferir se não era sonho. Não conseguiu. A casa também tinha sumido e ele estava completamente só, envolvido por um dia que parecia noite, diante de um vazio sem fim, apavorante.
Sentiu o fio de suor gelado escorrer pela espinha. Parado no mesmo lugar ele não ia ficar, mas andar para onde? Pensou em Ana. Tentou o telefone, mas não funcionou também. Fechou os olhos com força e tentou se acalmar pra ter a mínima possibilidade de pensar em alguma coisa que fizesse sentido. Ouviu o som da voz de Ana dizendo amor, amor...
Acordou assustado nos braços dela, respirando em descompasso. Abriu os olhos e viu o sorriso de Ana, e sorriu de volta, aliviado. Levantou devagar e foi até a janela. Não gostou do que viu. O dia estava estranho, escuro, chuva fina.
Quando abriu a porta de casa, ficou aterrorizado. Seu carro não estava na garagem e a garagem também não estava mais lá. Nada estava mais lá. Muro, quintal, rua, as casas dos vizinhos, tudo havia desaparecido. Quis voltar para casa para tornar a sair e conferir se não era sonho. Não conseguiu. A casa também tinha sumido e ele estava completamente só, envolvido por um dia que parecia noite, diante de um vazio sem fim, apavorante.
Sentiu o fio de suor gelado escorrer pela espinha. Parado no mesmo lugar ele não ia ficar, mas andar para onde? Pensou em Ana. Tentou o telefone, mas não funcionou também. Fechou os olhos com força e tentou se acalmar pra ter a mínima possibilidade de pensar em alguma coisa que fizesse sentido. Ouviu o som da voz de Ana dizendo amor, amor...
Acordou assustado nos braços dela, respirando em descompasso. Abriu os olhos e viu o sorriso de Ana, e sorriu de volta, aliviado. Levantou devagar e foi até a janela. Não gostou do que viu. O dia estava estranho, escuro, chuva fina.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
Voltou pra casa diferente para sempre.
Nunca havia realmente refletido sobre Deus como força criadora. Mas hoje aconteceu o estalo: o que importa é a criação. E também a ideia de sermos nós feitos à Sua imagem e semelhança, estando da mesma forma impregnados de poder e capacidade para criar aquilo que quisermos. Esse é o segredo.
Clara saltou do barco e gostou da sensação do corpo molhado de mar. Os dias na ilha tinham deixado sua pele linda, com cor de sol e gosto de sal. O cabelo, longo e cheio, estava ainda mais bonito, raios dourados emoldurando seu rosto de moça bonita. Pegou a bolsa com o marinheiro, que se inclinava para que ela alcançasse com mais facilidade. Sorriu e desejou a ele boa viagem de volta.
- Manda uns beijos para a ilha por mim!, falou mais alto para que ele ouvisse enquanto se afastava, e ela sentiu um aperto no peito, porque sabia que ia sentir saudade.
Nem podia acreditar no que tinha vivido nestes dias. Medrosa do jeito que sempre tinha sido, quem diria que ela iria pilotar lanchas, puxar gente em esqui aquático, praticar windsurf, nadar entre cardumes e pescar com o barco a motor balançando bem perto das pedras onde os peixes vem comer e acabam virando comida. Claro que teve muito apoio dos amigos, mas ela tinha mesmo feito tudo sozinha, logo ela, uma pessoa que até então só tinha feito ler e estudar, estudar e ler. O irmão sim, o irmão era atleta, sempre tinha sido. Mas Clara não. Clara era de ficar no quarto o dia inteiro, branquinha de nunca pegar sol. E agora ela estava ali, vendo o barco voltar pra ilha... e se deu conta de que algo dentro dela nunca iria sair de lá. Suspirou e sorriu. Voltou pra casa diferente para sempre.
Clara saltou do barco e gostou da sensação do corpo molhado de mar. Os dias na ilha tinham deixado sua pele linda, com cor de sol e gosto de sal. O cabelo, longo e cheio, estava ainda mais bonito, raios dourados emoldurando seu rosto de moça bonita. Pegou a bolsa com o marinheiro, que se inclinava para que ela alcançasse com mais facilidade. Sorriu e desejou a ele boa viagem de volta.
- Manda uns beijos para a ilha por mim!, falou mais alto para que ele ouvisse enquanto se afastava, e ela sentiu um aperto no peito, porque sabia que ia sentir saudade.
Nem podia acreditar no que tinha vivido nestes dias. Medrosa do jeito que sempre tinha sido, quem diria que ela iria pilotar lanchas, puxar gente em esqui aquático, praticar windsurf, nadar entre cardumes e pescar com o barco a motor balançando bem perto das pedras onde os peixes vem comer e acabam virando comida. Claro que teve muito apoio dos amigos, mas ela tinha mesmo feito tudo sozinha, logo ela, uma pessoa que até então só tinha feito ler e estudar, estudar e ler. O irmão sim, o irmão era atleta, sempre tinha sido. Mas Clara não. Clara era de ficar no quarto o dia inteiro, branquinha de nunca pegar sol. E agora ela estava ali, vendo o barco voltar pra ilha... e se deu conta de que algo dentro dela nunca iria sair de lá. Suspirou e sorriu. Voltou pra casa diferente para sempre.
domingo, 10 de janeiro de 2016
Hoje, ela preferiu a própria companhia.
Enquanto andava, pensava que não precisava ter sido assim. Sabia que a vida nunca esteve sob controle, e que o chamado destino é essa montoeira de coisa que te acontece sem que você tenha a menor participação nisso. A parte que cabia a ela, essa que a gente chama de livre arbítrio, ela procurava fazer bem direitinho. Tinha estudado muito, planejado o que podia da vida, andava mais em linha reta do que a maioria dos amigos. Como é que tinha dado tudo errado então?
Sentiu a bolsa começar a escorregar do ombro e lembrou dele. Ele sempre ajeitava a bolsa pra ela enquanto andavam abraçados. Tinha sido assim desde a primeira vez que andaram juntos e ela ficava comovida com o que considerava uma delicadeza. Nunca alguém tinha ajeitado a bolsa pra ela antes.
Olhando pra trás, tentou identificar o momento em que as coisas entre eles começaram a dar errado. E entendeu que foi quando parou te ter vontade de reclamar. Reclamar é chato, mas pelo menos é uma tentativa de comunicação. Quando a gente para de falar, é porque cansou. E cansado, ninguém vai a lugar algum.
Tinha se imaginado saindo da situação de desconforto de umas mil maneiras já. Tinha viajado, tinha corrido, tinha ido pra casa da mãe, tinha se trancado no quarto, tudo na cabeça dela. Mas o corpo não seguia junto. O corpo ficava parado, medroso, sabido que era. O corpo sabia que se saísse, não voltaria. E o corpo não queria perder o corpo do outro.
Até que chegou hoje. E quando ela viu, mesmo antes que se imaginasse de novo fugindo, fugiu de verdade. Sem saber pra onde ia, foi indo sem olhar para trás. Lembrou do tio querido que sempre disse pra ela que não adiantava fugir pra lugar nenhum porque sempre se levaria consigo. Mas hoje, especialmente hoje, ela não teve medo. Hoje, ela preferiu a própria companhia.
Sentiu a bolsa começar a escorregar do ombro e lembrou dele. Ele sempre ajeitava a bolsa pra ela enquanto andavam abraçados. Tinha sido assim desde a primeira vez que andaram juntos e ela ficava comovida com o que considerava uma delicadeza. Nunca alguém tinha ajeitado a bolsa pra ela antes.
Olhando pra trás, tentou identificar o momento em que as coisas entre eles começaram a dar errado. E entendeu que foi quando parou te ter vontade de reclamar. Reclamar é chato, mas pelo menos é uma tentativa de comunicação. Quando a gente para de falar, é porque cansou. E cansado, ninguém vai a lugar algum.
Tinha se imaginado saindo da situação de desconforto de umas mil maneiras já. Tinha viajado, tinha corrido, tinha ido pra casa da mãe, tinha se trancado no quarto, tudo na cabeça dela. Mas o corpo não seguia junto. O corpo ficava parado, medroso, sabido que era. O corpo sabia que se saísse, não voltaria. E o corpo não queria perder o corpo do outro.
Até que chegou hoje. E quando ela viu, mesmo antes que se imaginasse de novo fugindo, fugiu de verdade. Sem saber pra onde ia, foi indo sem olhar para trás. Lembrou do tio querido que sempre disse pra ela que não adiantava fugir pra lugar nenhum porque sempre se levaria consigo. Mas hoje, especialmente hoje, ela não teve medo. Hoje, ela preferiu a própria companhia.
sábado, 9 de janeiro de 2016
Deu meia volta e foi fazer um arroz.
Enquanto chorava, Luzia catava feijão. Não ia deixar de fazer o almoço só porque estava triste. Triste era sempre tudo mais difícil, principalmente trabalhar, fazer coisas acontecerem. Triste, só tinha vontade de ficar quieta no mesmo lugar. Mas até que catar feijão não era tão difícil. Talvez um dia ela parasse de uma vez de ficar triste. Talvez um dia, ela ficasse feliz o tempo todo, animada, cheia de vida. Vida para Luiza era sinônimo de alegria. E alegria, ela já tinha aprendido isso, é coisa que vem de dentro.
Acabou de catar o feijão, enxugou as lágrimas no pano de prato. Esse era bem bonitinho, novinho, com uns franguinhos bordados. Lembrava os que a avó fazia com barra de crochê. Ou os que a sogra enfeitava com faixas coloridas, sempre tudo combinando muito direitinho. Luiza gostava dos paninhos, da casa arrumada, cheirando a tempero. Colocou o feijão pra cozinhar com uma folha de louro que pegou no quintal. Cheiro de tempero suficiente, por hora.
Começou a se arrastar de volta pra cama, mas no caminho o telefone tocou. Atendeu. Era engano, mas o moço tinha uma voz muito bonita. Luiza ficou pensando que gosta muito de vozes bonitas. E pensando de beleza em beleza, foi ficando cada vez mais longe da tristeza. Deu meia volta e foi fazer um arroz.
Acabou de catar o feijão, enxugou as lágrimas no pano de prato. Esse era bem bonitinho, novinho, com uns franguinhos bordados. Lembrava os que a avó fazia com barra de crochê. Ou os que a sogra enfeitava com faixas coloridas, sempre tudo combinando muito direitinho. Luiza gostava dos paninhos, da casa arrumada, cheirando a tempero. Colocou o feijão pra cozinhar com uma folha de louro que pegou no quintal. Cheiro de tempero suficiente, por hora.
Começou a se arrastar de volta pra cama, mas no caminho o telefone tocou. Atendeu. Era engano, mas o moço tinha uma voz muito bonita. Luiza ficou pensando que gosta muito de vozes bonitas. E pensando de beleza em beleza, foi ficando cada vez mais longe da tristeza. Deu meia volta e foi fazer um arroz.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2016
Itacoatiara resolve.
Uma caixa de bis. Não se chama bis à toa. Principalmente quando está fresquinho.
Numa manhã assim, quando não se tem nada pra fazer, e o dia está bonito, e você está com o seu amor ali ao alcance da mão, mas dormindo ainda, a gente vai molhar as plantas, por exemplo. Antes do sol chegar, que é pra elas terem alguma chance.
Outra coisa legal é sair de fininho e ir até o mercado. Ou então fazer um pão você mesmo. Mas o importante é providenciar para que quando o resto do pessoal da casa acordar, eles tenham já um café bem gostosinho esperando por eles. Fica todo mundo feliz e aí você, que fez acontecer, fica feliz também. É fácil.
Outra coisa boa é voltar pra cama depois do café. Só um pouquinho, só porque é possível. Ô soninho bom, esse, de dia de folga de manhãzinha.
Num dia de folga assim, João saiu depois da soneca e saiu sozinho, porque sim. Foi de carro, porque não sabia muito bem para onde estava indo, então melhor estar preparado para longas distâncias. João estava precisando de uma certa distância de casa. Dez quilômetros depois estava onde queria. Distância suficiente. João resolveu todos os seus problemas de frente pro mar, tomando uma água de côco.
Itacoatiara resolve.
Numa manhã assim, quando não se tem nada pra fazer, e o dia está bonito, e você está com o seu amor ali ao alcance da mão, mas dormindo ainda, a gente vai molhar as plantas, por exemplo. Antes do sol chegar, que é pra elas terem alguma chance.
Outra coisa legal é sair de fininho e ir até o mercado. Ou então fazer um pão você mesmo. Mas o importante é providenciar para que quando o resto do pessoal da casa acordar, eles tenham já um café bem gostosinho esperando por eles. Fica todo mundo feliz e aí você, que fez acontecer, fica feliz também. É fácil.
Outra coisa boa é voltar pra cama depois do café. Só um pouquinho, só porque é possível. Ô soninho bom, esse, de dia de folga de manhãzinha.
Num dia de folga assim, João saiu depois da soneca e saiu sozinho, porque sim. Foi de carro, porque não sabia muito bem para onde estava indo, então melhor estar preparado para longas distâncias. João estava precisando de uma certa distância de casa. Dez quilômetros depois estava onde queria. Distância suficiente. João resolveu todos os seus problemas de frente pro mar, tomando uma água de côco.
Itacoatiara resolve.
E foi isso que ela fez.
Começou a voltar para casa quando olhou pela janela do escritório e viu o mar. Era bonita a vista. Vacker utsikt, em sueco. Andava estudando sueco, de uns tempos para cá. Mas esse não é o assunto dessa história.
Morar em Niterói e trabalhar no Rio significava estar em um relacionamento sério com o mar. Duas barcas por dia atravessando a Baía de Guanabara. Não era ruim não, era bom. Era calmo. E demorava o tempo certo para uma revistinha ou uma soneca, até. Se bem que, pensando bem, nunca tinha dormido na barca. Ler sim, ler ela lia. Mais recentemente, jogava no celular. Mas esse ainda não é o assunto dessa história.
Neste dia em particular, quando resolveu sair do trabalho, ainda estava dia claro. Despediu-se de todos e conseguiu pegar um elevador com pouca gente. Uma ou duas breves conversas no trajeto comprido até o térreo. Se aquietou quando chegou na rua, o vento quente lembrando que o dia tinha ainda umas 2 horas e meia de sol. Desceu a São José e conseguiu pegar a primeira barca saindo. Melhor coisa. Respirou e sorriu. Resolveu que ia voltar para casa contemplando a baía. E foi isso que ela fez.
Morar em Niterói e trabalhar no Rio significava estar em um relacionamento sério com o mar. Duas barcas por dia atravessando a Baía de Guanabara. Não era ruim não, era bom. Era calmo. E demorava o tempo certo para uma revistinha ou uma soneca, até. Se bem que, pensando bem, nunca tinha dormido na barca. Ler sim, ler ela lia. Mais recentemente, jogava no celular. Mas esse ainda não é o assunto dessa história.
Neste dia em particular, quando resolveu sair do trabalho, ainda estava dia claro. Despediu-se de todos e conseguiu pegar um elevador com pouca gente. Uma ou duas breves conversas no trajeto comprido até o térreo. Se aquietou quando chegou na rua, o vento quente lembrando que o dia tinha ainda umas 2 horas e meia de sol. Desceu a São José e conseguiu pegar a primeira barca saindo. Melhor coisa. Respirou e sorriu. Resolveu que ia voltar para casa contemplando a baía. E foi isso que ela fez.
"Guanabara Bay pan". Licenciado sob Copyrighted free use, via Wikimedia Commons
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
Mário foi bem feliz.
(Hoje eu encontrei com ela, abracei ela, saí com ela, almocei com ela, conversei com ela, encontrei com os amigos dela na rua, tomei café com ela, visitei o trabalho novo dela, e fiquei bem feliz.)
A história de hoje é sobre um homem chamado Mário.
Mário só usava terno bonito, ou branco ou preto. Nos brancos, nenhum fio nem bolinha preta; nos pretos, nem um mínimo pelinho branco.
Mário, ele mesmo, passava os seus ternos. Lavar, ele não lavava, mas quem passava era sempre ele. Para que ficassem bonitos como ele gostava de parecer também.
Mário tinha uma mala verde, feita de papelão bem forte e com estrutura de madeira, toda forrada por dentro com um papel colorido fininho, só para guardar e viajar com os ternos dele.
Mário teve mulher e filho, neta e neto, parentes. Mas o amor da vida dele era ele mesmo, Mário, vestido com seus ternos bonitos.
Mário foi bem feliz.
A história de hoje é sobre um homem chamado Mário.
Mário só usava terno bonito, ou branco ou preto. Nos brancos, nenhum fio nem bolinha preta; nos pretos, nem um mínimo pelinho branco.
Mário, ele mesmo, passava os seus ternos. Lavar, ele não lavava, mas quem passava era sempre ele. Para que ficassem bonitos como ele gostava de parecer também.
Mário tinha uma mala verde, feita de papelão bem forte e com estrutura de madeira, toda forrada por dentro com um papel colorido fininho, só para guardar e viajar com os ternos dele.
Mário teve mulher e filho, neta e neto, parentes. Mas o amor da vida dele era ele mesmo, Mário, vestido com seus ternos bonitos.
Mário foi bem feliz.
terça-feira, 5 de janeiro de 2016
Hoje escrevi para você.
Quando a gente tem uma filha, pode gostar dela, pode não gostar, pode se identificar, pode achar muito diferente. Pois a minha filha é melhor do que tudo que eu podia imaginar. É isso que eu queria escrever hoje. Às vezes ela me lê e até me elogia. Vai que um dia ela lê isso aqui. Assim ficará sabendo que eu amo ela mais que tudo, e que eu tenho muito orgulho dela, e que eu me lembro de quando ela nem alcançava a maçaneta da porta, mas já gostava de ir sozinha pegar alguma coisa que tivesse esquecido na sala, enquanto eu esperava no quarto dela pra contar uma história até ela adormecer. Ou que a melhor de todas as viagens que eu fiz na vida foi com ela, bagunceirinha e esperta muitas vezes mais que eu, minha co-pilota salvadora de tudo. Meu amor da minha vida, te amo muito. Hoje escrevi para você.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2016
Vera nunca mais chegou atrasada.
Vera desceu a rua apressada. Era a segunda vez que ia chegar atrasada no trabalho novo. No dia anterior o chefe já tinha olhado pra ela com cara de poucos amigos e ela só conseguia pensar que hoje ia ser ainda pior. Não estava acostumada a usar salto e jurou que no dia seguinte ia usar tênis até a porta do escritório. Não tinha comido em casa, passou na padaria correndo, pegou um pão doce e um café pra viagem. Chegou no elevador 5 minutos antes da hora, mas a fila estava enorme. Todo mundo com o mesmo problema. Teve que esperar, porque se resolvesse subir os 38 andares a pé é que não ia chegar nunca mesmo. Conseguiu chegar 10 minutos atrasada, e a primeira pessoa que viu foi o chefe, com uma cara horrível. Ofereceu o pão doce e o café pra ele. Ele aceitou. Devia ser fome, a cara feia dele. A mãe dela sempre disse isso, que cara feia é fome.
Bom, agora quem ia ficar com fome era ela, mas pelo menos tinha amansado o fera. Sentou no seu lugar pequeno e longe da janela. Olhou pra foto do irmão que tinha colocado lá ontem num canto. Suspirou, percebendo uma ponta de tristeza. Gostava muito do irmão, sentia muita saudade dele. Há uns dois anos não se viam, desde que ela veio morar na cidade. Mandava dinheiro todo mês pra casa da mãe, até que ficou desempregada por dois meses. Não podia se atrapalhar agora, todo mundo na família dependia dela. Começou a grampear o que era pra ser grampeado e foi fazendo uma pilha enorme de papéis para a contabilidade. Até que o serviço não era ruim, ela sempre tinha gostado de brincar de secretária.
No meio do dia conseguiu descer para a rua. A barriga estava fria, sinal inequívoco de que precisava comer alguma coisa rápido. Foi no lanche preferido: pizza de sardinha com vitamina de abacate. Combinação que só é estranha pra quem nunca comeu isso, porque se comeu uma vez, vai repetir muitas vezes. Tinha meia hora pra almoçar e observar as pessoas. Era o que Vera mais gostava de fazer, observar os outros e inventar a vida deles. Um dia ela ia escrever histórias, pensava... Até que viu o chefe. Ali, sozinho na lanchonete, ele parecia mais novo e mais calmo. E mais triste. Vera viu quando ele tirou o papelzinho de dentro da carteira e olhou o retrato da moça. E ela jura que viu ele chorando um pouquinho.
Ela ficou tão surpresa que fez barulho com o copo e o prato e ele olhou pra ela. Os dois disfarçaram e logo estavam subindo novamente para o escritório, cada um num elevador diferente.
Vera nunca mais chegou atrasada.
Bom, agora quem ia ficar com fome era ela, mas pelo menos tinha amansado o fera. Sentou no seu lugar pequeno e longe da janela. Olhou pra foto do irmão que tinha colocado lá ontem num canto. Suspirou, percebendo uma ponta de tristeza. Gostava muito do irmão, sentia muita saudade dele. Há uns dois anos não se viam, desde que ela veio morar na cidade. Mandava dinheiro todo mês pra casa da mãe, até que ficou desempregada por dois meses. Não podia se atrapalhar agora, todo mundo na família dependia dela. Começou a grampear o que era pra ser grampeado e foi fazendo uma pilha enorme de papéis para a contabilidade. Até que o serviço não era ruim, ela sempre tinha gostado de brincar de secretária.
No meio do dia conseguiu descer para a rua. A barriga estava fria, sinal inequívoco de que precisava comer alguma coisa rápido. Foi no lanche preferido: pizza de sardinha com vitamina de abacate. Combinação que só é estranha pra quem nunca comeu isso, porque se comeu uma vez, vai repetir muitas vezes. Tinha meia hora pra almoçar e observar as pessoas. Era o que Vera mais gostava de fazer, observar os outros e inventar a vida deles. Um dia ela ia escrever histórias, pensava... Até que viu o chefe. Ali, sozinho na lanchonete, ele parecia mais novo e mais calmo. E mais triste. Vera viu quando ele tirou o papelzinho de dentro da carteira e olhou o retrato da moça. E ela jura que viu ele chorando um pouquinho.
Ela ficou tão surpresa que fez barulho com o copo e o prato e ele olhou pra ela. Os dois disfarçaram e logo estavam subindo novamente para o escritório, cada um num elevador diferente.
Vera nunca mais chegou atrasada.
domingo, 3 de janeiro de 2016
Tenham todos uma boa noite. :)
O certo, quando a gente faz uma promessa, é cumprir a promessa. Caso contrário é melhor não fazer. Quando a gente é mais novinho, não se conhece ainda direito e aí se atrapalha muitas vezes. Promete muito, não cumpre sempre, fica várias vezes chateado consigo mesmo. Quando é mais velhinho, promete menos, cumpre mais, já é mais amigo de si.
Pois bem. Escrevi ontem nada, então pra compensar escrevi dois textos hoje. Cumpro torto, mas cumpro em número. Ontem, minha gente, eu farreei: toquei bateria, cantei alto, me diverti muito e depois morri de sono e tive que ser minha amiga e me deixar dormir mesmo até porque não havia outro jeito.
Mas hoje está aqui um textinho sobre isso. Não é grande, mas é algo.
Tenham todos uma boa noite. :)
Pois bem. Escrevi ontem nada, então pra compensar escrevi dois textos hoje. Cumpro torto, mas cumpro em número. Ontem, minha gente, eu farreei: toquei bateria, cantei alto, me diverti muito e depois morri de sono e tive que ser minha amiga e me deixar dormir mesmo até porque não havia outro jeito.
Mas hoje está aqui um textinho sobre isso. Não é grande, mas é algo.
Tenham todos uma boa noite. :)
Boas companheiras de viagem, eu e minha avó querida.
(Sim, eu pulei um dia.)
Viagem com a minha avó começava bem cedinho de manhã. Acordávamos às 5h, todo mundo morrendo de sono, e ela já tinha passado um café para o meu café com leite e ela já tinha ido na padaria para o meu pãozinho com manteiga. Aí a gente pegava o que tivesse de malinha arranjada na noite anterior e partíamos para a rodoviária. Vovó nunca teve carro. Vovô teve, mas ele nunca ia viajar com a gente. Vovô tinha pavor de gente.
Mas vovó não, vovó era bem normalzinha e gostava das pessoas. Na rodoviária pegávamos o ônibus para Araruama e íamos visitar a família de Latifa por uns dias.
Latifa era amiga da vovó há muito tempo. Morava num sítio grande, cheirando um pouco a bosta de cavalo em alguns lugares, mas não na casa toda, claro. É que o cheiro de cocô de cavalo é um cheiro que acaba que é bom, meio de mato, meio que mais curtido um pouco, mas gostoso, tem a ver com fazenda demais. Eu acho que parece até com cheio de chuva, esses cheiros bons que a gente gosta de sentir de vez em quando.
A gente chegava e ia brincar por lá num espaço danado. Corria pra todo lado, brincava de bandeirinha, de esconde-esconde... até perto da hora do almoço, e aí tinha feijão, arroz, frango... E de sobremesa, doce de mamão verde, que a Latifa fazia e que eu creio que é a minha comida preferida de todos os tempos.
Eu adorava também o café da manhã no dia seguinte, quando a gente ia pegar o leite lá na vaca. Eu tinha um medo que me pelava das vacas. Elas ficavam lá paradas, mascando capim, mas se a gente desse bobeira elas se mexiam pro nosso lado e vaca é igual a caminhão, vaca não tem muito freio não. Aprendi a ficar esperta perto de vaca. O leite, o moço tirava lá e me dava num baldezinho, que eu trazia pra cozinha balançando a espuma. Eu não gostava de nata no leite, mas assim fresquinho da vaca não tinha nata não. Só se fervesse. Aí ficava bom pra pegar a nata e fazer biscoito. Ou manteiga. Variava.
A gente ficava só uns três dias lá na casa de Latifa e depois voltávamos pra Niterói de novo. Era viagem curtinha, mas eu gostava da aventura e da companhia da minha avó. Boas companheiras de viagem, eu e minha avó querida.
Viagem com a minha avó começava bem cedinho de manhã. Acordávamos às 5h, todo mundo morrendo de sono, e ela já tinha passado um café para o meu café com leite e ela já tinha ido na padaria para o meu pãozinho com manteiga. Aí a gente pegava o que tivesse de malinha arranjada na noite anterior e partíamos para a rodoviária. Vovó nunca teve carro. Vovô teve, mas ele nunca ia viajar com a gente. Vovô tinha pavor de gente.
Mas vovó não, vovó era bem normalzinha e gostava das pessoas. Na rodoviária pegávamos o ônibus para Araruama e íamos visitar a família de Latifa por uns dias.
Latifa era amiga da vovó há muito tempo. Morava num sítio grande, cheirando um pouco a bosta de cavalo em alguns lugares, mas não na casa toda, claro. É que o cheiro de cocô de cavalo é um cheiro que acaba que é bom, meio de mato, meio que mais curtido um pouco, mas gostoso, tem a ver com fazenda demais. Eu acho que parece até com cheio de chuva, esses cheiros bons que a gente gosta de sentir de vez em quando.
A gente chegava e ia brincar por lá num espaço danado. Corria pra todo lado, brincava de bandeirinha, de esconde-esconde... até perto da hora do almoço, e aí tinha feijão, arroz, frango... E de sobremesa, doce de mamão verde, que a Latifa fazia e que eu creio que é a minha comida preferida de todos os tempos.
Eu adorava também o café da manhã no dia seguinte, quando a gente ia pegar o leite lá na vaca. Eu tinha um medo que me pelava das vacas. Elas ficavam lá paradas, mascando capim, mas se a gente desse bobeira elas se mexiam pro nosso lado e vaca é igual a caminhão, vaca não tem muito freio não. Aprendi a ficar esperta perto de vaca. O leite, o moço tirava lá e me dava num baldezinho, que eu trazia pra cozinha balançando a espuma. Eu não gostava de nata no leite, mas assim fresquinho da vaca não tinha nata não. Só se fervesse. Aí ficava bom pra pegar a nata e fazer biscoito. Ou manteiga. Variava.
A gente ficava só uns três dias lá na casa de Latifa e depois voltávamos pra Niterói de novo. Era viagem curtinha, mas eu gostava da aventura e da companhia da minha avó. Boas companheiras de viagem, eu e minha avó querida.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
Nem tudo muda o tempo todo no mundo.
Uma moça bonita, pobre, tímida, fascinada por cores e arte.
Um homem casado, 15 filhos, pintor de retratos. Um mestre de sombra e luz, Johannes Vermeer.
"Moça com brinco de pérola" é um filme bem delicado. Foi interessante saber como eram feitas as tintas naquela época. E como lavavam roupa. Modos de fazer mudaram muito, mas ainda hoje há quem goste de pintar e ainda hoje usamos roupa que tem que ser lavada. As tecnologias relacionadas à preparação de comida também mudaram muito, mas ainda cortamos cenouras em rodelas como em 1665. E ainda temos fome. E frio.
E como fazia frio no inverno holandês quando o Vermeer estava vivo! Outra coisa que continua igual até hoje. Vi no filme uma camisola pendurada na corda pra secar, que apanhou um banho de neve e acabou congelando, ficou lá, dura como se fosse feita de pau.
As moças do filme, principalmente as empregadas domésticas, tinham por hábito prender o cabelo sob lenços e toucas de pano. Acho que devia ser para não ficar caindo cabelo delas em tudo quanto era lugar. Hoje em dia cabelo ainda é uma coisa que cai muito.
Nem tudo muda o tempo todo no mundo.
Um homem casado, 15 filhos, pintor de retratos. Um mestre de sombra e luz, Johannes Vermeer.
"Moça com brinco de pérola" é um filme bem delicado. Foi interessante saber como eram feitas as tintas naquela época. E como lavavam roupa. Modos de fazer mudaram muito, mas ainda hoje há quem goste de pintar e ainda hoje usamos roupa que tem que ser lavada. As tecnologias relacionadas à preparação de comida também mudaram muito, mas ainda cortamos cenouras em rodelas como em 1665. E ainda temos fome. E frio.
E como fazia frio no inverno holandês quando o Vermeer estava vivo! Outra coisa que continua igual até hoje. Vi no filme uma camisola pendurada na corda pra secar, que apanhou um banho de neve e acabou congelando, ficou lá, dura como se fosse feita de pau.
As moças do filme, principalmente as empregadas domésticas, tinham por hábito prender o cabelo sob lenços e toucas de pano. Acho que devia ser para não ficar caindo cabelo delas em tudo quanto era lugar. Hoje em dia cabelo ainda é uma coisa que cai muito.
Nem tudo muda o tempo todo no mundo.
"Johannes Vermeer (1632-1675) - The Girl With The Pearl Earring (1665)"
Beijos para vocês.
Gente, passei da hora! Passei de dia, passei de ano! Mas tranquilo, o importante é não ir dormir sem uns escritos. Hoje comprei bis, e se como um, como seis. Aprendi isso.
Hoje passei o dia de ontem desejando feliz 2016 pra todo mundo. E às vezes tive que corrigir porque saía 2017 ou 2026. Chegaremos lá.
Por enquanto, vamos de 2016. Gosto muito de 16. Eu sou de 6 do 10, minha mãe e meu irmão são do dia 16, meu pai era de 28 do 6 e 28 se somar 2 + 8 dá 10, com o 6 do mês, 16 de novo.
Vamos todos realizar um ano bem bonito. Durmam bem esse primeiro soninho do ano. Beijos para vocês.
Hoje passei o dia de ontem desejando feliz 2016 pra todo mundo. E às vezes tive que corrigir porque saía 2017 ou 2026. Chegaremos lá.
Por enquanto, vamos de 2016. Gosto muito de 16. Eu sou de 6 do 10, minha mãe e meu irmão são do dia 16, meu pai era de 28 do 6 e 28 se somar 2 + 8 dá 10, com o 6 do mês, 16 de novo.
Vamos todos realizar um ano bem bonito. Durmam bem esse primeiro soninho do ano. Beijos para vocês.
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