Enquanto andava, pensava que não precisava ter sido assim. Sabia que a vida nunca esteve sob controle, e que o chamado destino é essa montoeira de coisa que te acontece sem que você tenha a menor participação nisso. A parte que cabia a ela, essa que a gente chama de livre arbítrio, ela procurava fazer bem direitinho. Tinha estudado muito, planejado o que podia da vida, andava mais em linha reta do que a maioria dos amigos. Como é que tinha dado tudo errado então?
Sentiu a bolsa começar a escorregar do ombro e lembrou dele. Ele sempre ajeitava a bolsa pra ela enquanto andavam abraçados. Tinha sido assim desde a primeira vez que andaram juntos e ela ficava comovida com o que considerava uma delicadeza. Nunca alguém tinha ajeitado a bolsa pra ela antes.
Olhando pra trás, tentou identificar o momento em que as coisas entre eles começaram a dar errado. E entendeu que foi quando parou te ter vontade de reclamar. Reclamar é chato, mas pelo menos é uma tentativa de comunicação. Quando a gente para de falar, é porque cansou. E cansado, ninguém vai a lugar algum.
Tinha se imaginado saindo da situação de desconforto de umas mil maneiras já. Tinha viajado, tinha corrido, tinha ido pra casa da mãe, tinha se trancado no quarto, tudo na cabeça dela. Mas o corpo não seguia junto. O corpo ficava parado, medroso, sabido que era. O corpo sabia que se saísse, não voltaria. E o corpo não queria perder o corpo do outro.
Até que chegou hoje. E quando ela viu, mesmo antes que se imaginasse de novo fugindo, fugiu de verdade. Sem saber pra onde ia, foi indo sem olhar para trás. Lembrou do tio querido que sempre disse pra ela que não adiantava fugir pra lugar nenhum porque sempre se levaria consigo. Mas hoje, especialmente hoje, ela não teve medo. Hoje, ela preferiu a própria companhia.
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