Enquanto chorava, Luzia catava feijão. Não ia deixar de fazer o almoço só porque estava triste. Triste era sempre tudo mais difícil, principalmente trabalhar, fazer coisas acontecerem. Triste, só tinha vontade de ficar quieta no mesmo lugar. Mas até que catar feijão não era tão difícil. Talvez um dia ela parasse de uma vez de ficar triste. Talvez um dia, ela ficasse feliz o tempo todo, animada, cheia de vida. Vida para Luiza era sinônimo de alegria. E alegria, ela já tinha aprendido isso, é coisa que vem de dentro.
Acabou de catar o feijão, enxugou as lágrimas no pano de prato. Esse era bem bonitinho, novinho, com uns franguinhos bordados. Lembrava os que a avó fazia com barra de crochê. Ou os que a sogra enfeitava com faixas coloridas, sempre tudo combinando muito direitinho. Luiza gostava dos paninhos, da casa arrumada, cheirando a tempero. Colocou o feijão pra cozinhar com uma folha de louro que pegou no quintal. Cheiro de tempero suficiente, por hora.
Começou a se arrastar de volta pra cama, mas no caminho o telefone tocou. Atendeu. Era engano, mas o moço tinha uma voz muito bonita. Luiza ficou pensando que gosta muito de vozes bonitas. E pensando de beleza em beleza, foi ficando cada vez mais longe da tristeza. Deu meia volta e foi fazer um arroz.
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