quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

O humor de Pedra melhorou um pouquinho.

- Pedra Preta é sempre assim. Não tem como a gente agradar.

Pedra Preta era o nome de um indiozinho desses do jeito que a gente aprende na escola. Barrigudinho, urucum no rosto, franja e cabelo reto preto, shortinho e sandália havaiana.

Nesse dia ele acordou mal-humorado. Pior do que o de costume. Assim mesmo correu pra fora da oca em direção ao rio, onde havia guardado uma surpresa para a sua irmã. Iara tinha 13 anos e ia se casar. Pedra queria dar a ela um presente especial.

No dia anterior, tinha passado a tarde brincando no rio, e depois de muito mergulhar e tentar fisgar uns peixinhos, viu um canto de areia que brilhava diferente. Pegou um punhado com a mão, adorando a sensação da areia encharcada de água fresca. Esperou secar um pouco e viu que se fosse deixando escorrer entre os dedos, sobravam umas pedrinhas douradas que ele tinha certeza de que a irmã ia gostar.

Ouviu o grito da mãe chamando e assustou-se. Deixou cair tudo na água e aborrecido, resignou-se a voltar para a aldeia. Depois que os homens brancos tinham dado essas sandálias para eles, dar chinelada em curumim abusado tinha virado moda. Queria evitar. Teria que voltar  no dia seguinte para buscar o presente de Iara. E logo no último dia em que ia ter a irmã só para ele. Por isso a correria e o mau humor de hoje.

Quando chegou no rio, de longe viu de novo o brilho amarelo das pedrinhas. Foi até lá ouvindo o barulho das pernas mexendo a água, ai que delícia esse rio, ele achava. Tinha levado um saquinho de plástico que guardava desde que achou voando na floresta. Usou pra colocar as pedrinhas que conseguiu separar da areia fina. Correu de volta pra oca, e foi esconder o presente da irmã.

No fim da tarde, juntaram o povo no meio da aldeia para a festa do casamento. Pedra estava agitado, a irmã não ia mais voltar para casa, ia morar com aquele índio feioso com cara de mau, que já tinha puxado as orelhas dele umas mil vezes.

- Pedra Preta é sempre assim. Não tem como a gente agradar., dizia o índio quando ele, furioso, saía chorando pra se consolar sozinho.

De repente viu a irmã. Bonita mais ainda, enfeitada, com pinturas novas no corpo e cara de séria. Pedra sentiu um aperto no peito que voltou algumas vezes enquanto a cerimônia se realizava. No final, beberam cauim, menos ele e os da idade dele, pequenos demais para isso.

Chegou perto da irmã e abraçou as pernas dela. Ela mexeu no cabelo de Pedra com aquelas mãos lindas dela. Pedra sentiu seu cheiro e chorou um pouquinho. Olhou pra cima, pros olhos dela, e deu o saquinho de pedrinhas brilhantes para a irmã querida.

Ela gostou. Se abaixou, olhou Pedra nos olhos e disse:

- Iara gosta muito de você Pedra Preta. Gosto também das pedrinhas amarelas que você achou para mim.

Sorriu e bagunçou o cabelo dele de novo. O humor de Pedra melhorou um pouquinho.


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