Marrom. Outra blusa marrom. Mas ficava muito bem de marrom. Sentia-se bonita. E decote. Gostava de decotes. E de cabelos cortados na altura do queixo. Nos olhos, sombra e luz. Na boca, um batom novo e vermelho.
Esperava o elevador com ansiedade. Voltara da viagem no dia anterior, mas só há duas horas ouvira a mensagem.
- Oi, sou eu. Estou com o seu presente. Vem me ver? Estou no escritório.
Percebeu a excitação na voz da amiga. Sentiu o coração pulsar mais intensamente. Ouviu mais e mais vezes o recado no curto trajeto entre o Leme e a Urca. "Vem me ver?", ecoava repetidas vezes por todos os cantos da sua cabeça.
Eram amigas desde sempre. Quando pequenas, eram vizinhas. Frequentaram a mesma escola, fizeram ballet juntas. Gostavam e desgostavam das mesmas comidas. Não se pareciam, mas eram iguais. Só brigaram uma vez na vida, quando uma delas começou a namorar e parou de querer ver a outra a toda hora. Mas logo o namoro terminou e passaram a fazer tudo juntas novamente. Até que chegou a época de escolher faculdade. Uma quis fazer cinema, outra quis cursar arquitetura. Uma ficou no Rio, outra foi para Minas Gerais. Cinco anos se vendo só nas férias e viajando juntas para todo lado.
Depois de formadas, uma abriu um escritório no Rio, e a outra foi fazer curso fora. E aí foram dois anos sem se ver de verdade. Um dia o curso acabou, e foi aí que começou essa história.
Todo dia um texto
sexta-feira, 5 de outubro de 2018
Jonas
Jonas chegou cedo, puxou um cigarro, procurou um canto e fumou com certo prazer e um bocado de culpa. E medo. E pose. E esquecimento. Estava frio, difícil até pra segurar o cigarro. Ou luva ou frio, preferia o frio. A luva tirava o tato e podia se queimar.
Um avião cheio de gente e ela lá dentro. Chegando. A reunião ia ser rápida, os irmãos queriam a peça fazia tempo, ele finalmente tinha concordado em ceder, hoje era só entregar, receber e correr pro aeroporto para pegar o vôo de volta. Eles bem que podiam já ter chegado...
Depois do cigarro, uma bala de menta, mãos nos bolsos, uma caminhada à toa pra esquentar e viu o carro chegando. Os dois irmãos saltaram e acenaram para Jonas. Pediram que se aproximasse e ele foi falar com o mais velho primeiro. Sorriu meio sem gosto e apertou sua mão efusivamente. Um tapinha nas costas e já se virava para andar até o outro quando ouviu o tiro.
Marta respirou aliviada quando o avião começou a parquear. Começou a juntar suas coisas e arrumar o lixo todo num saco só. Ainda estava vendo um trecho de série quando o telefone tocou.
Um avião cheio de gente e ela lá dentro. Chegando. A reunião ia ser rápida, os irmãos queriam a peça fazia tempo, ele finalmente tinha concordado em ceder, hoje era só entregar, receber e correr pro aeroporto para pegar o vôo de volta. Eles bem que podiam já ter chegado...
Depois do cigarro, uma bala de menta, mãos nos bolsos, uma caminhada à toa pra esquentar e viu o carro chegando. Os dois irmãos saltaram e acenaram para Jonas. Pediram que se aproximasse e ele foi falar com o mais velho primeiro. Sorriu meio sem gosto e apertou sua mão efusivamente. Um tapinha nas costas e já se virava para andar até o outro quando ouviu o tiro.
Marta respirou aliviada quando o avião começou a parquear. Começou a juntar suas coisas e arrumar o lixo todo num saco só. Ainda estava vendo um trecho de série quando o telefone tocou.
quinta-feira, 22 de março de 2018
Embarcada.
Perdera o equilíbrio há muito tempo atrás. Dez, quinze minutos? O atraso do trem abria um espaço que não sabia como preencher. A barra do casaco vermelho deixava entrever o brilho das botas pretas. Gostava disso.
Estava pensando muitas coisas diferentes, algumas se chocavam e disparavam a angústia da decisão e a culpa pela queda. O medo retrai, então a cura só podia vir de se entregar a respirar e relaxar e aceitar a confusão mental.
O trem chegou. Ela embarcou.
Carregou as malas e colocou num lugar seguro, para não ter surpresas durante a viagem. O lugar ao lado dela estava vazio, sentou na janela e olhou para fora. Entardecia e a estação não tinha nada de especial.
Estava pensando muitas coisas diferentes, algumas se chocavam e disparavam a angústia da decisão e a culpa pela queda. O medo retrai, então a cura só podia vir de se entregar a respirar e relaxar e aceitar a confusão mental.
O trem chegou. Ela embarcou.
Carregou as malas e colocou num lugar seguro, para não ter surpresas durante a viagem. O lugar ao lado dela estava vazio, sentou na janela e olhou para fora. Entardecia e a estação não tinha nada de especial.
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018
Como é ser casada com um Finlandês.
Onde é que a gente é igual e onde é que a gente é diferente?
Diferente: pessoa fica pelada com tranquilidade. O brasileiro não fica pelado à toa e essa é uma diferença. Uma diferença que aproxima e que intriga, que interessa. Porque a maneira como o finlandês se coloca pelado no mundo é uma maneira bem diferente da que o brasileiro se coloca semivestido no mundo. Brasileiro não fica pelado com tranquilidade na frente dos outros porque aqui dá problema ficar pelado. Vem polícia, vem todo mundo, uma confusão. Lá, família faz sauna todo mundo junto, pelado e sossegado.
Diferente: pessoa fica pelada com tranquilidade. O brasileiro não fica pelado à toa e essa é uma diferença. Uma diferença que aproxima e que intriga, que interessa. Porque a maneira como o finlandês se coloca pelado no mundo é uma maneira bem diferente da que o brasileiro se coloca semivestido no mundo. Brasileiro não fica pelado com tranquilidade na frente dos outros porque aqui dá problema ficar pelado. Vem polícia, vem todo mundo, uma confusão. Lá, família faz sauna todo mundo junto, pelado e sossegado.
sexta-feira, 14 de outubro de 2016
Escamas.
Não tinha um dia em que acordasse sem dor. Tinha 16 anos e não achava isso normal. Não tinha tido coragem de comentar com os pais. Não tinha tido coragem de comentar com ninguém. Depois do banho, do café, depois de andar até a escola e depois das primeiras duas horas sentado, ouvindo bláblabláblábláblábla, o corpo amortecia e parava de reclamar. Conseguia se levantar com facilidade para ir até a cantina e comprar um lanche. Conseguia comer. Conseguia ficar na escola até o meio-dia, caminhar de volta pra casa e sentar com a mãe para o almoço. Ela, sempre quieta, olhar perdido muito longe. Ele tentava adivinhar seus pensamentos, mas andava preocupado demais consigo mesmo para perguntar qualquer coisa. Passava a tarde estudando, ou jogando, ou vendo TV, sempre sozinho. À noite o pai chegava do trabalho e perguntava se estava tudo bem com ele. Respondia sempre que sim, o pai tinha olhos tristes, ele não queria piorar as coisas. Começava a suar frio quando se aproximava a hora de ir dormir. As dores começavam devagar, sentia as pernas latejarem, os braços ficavam pesados, as mãos ardiam. O aperto no peito começava, a garganta doía, os olhos lacrimejavam. De repente, bem forte, a grande dor explodia no meio das costas. Ele se encolhia, se esticava, se virava na cama, levantava com dificuldade, tentava controlar a respiração. Hoje, especialmente, a dor estava insuportável. Tentou ficar quieto, mas estava quase impossível suportar calado. Com os olhos salgados do suor que escorria pela testa, sem enxergar muito bem, se arrastou até o banheiro pra ver se encontrava algum analgésico forte. No corredor escuro, esbarrou em alguma coisa fria e viscosa. A tal coisa se movimentou e ele teve a impressão de ter visto uma criatura horrível, meio humana, meio lagarto, se afastando rapidamente. Assustado, viu que começava a alucinar, entrou no banheiro e fechou a porta com violência. Respirava com dificuldade, pela dor e pelo susto. Mas continuou tentando respirar e foi ficando mais calmo, devagar, mas sim, cada vez mais calmo e controlado. Pensou nos pais dormindo e se sentiu um pouco melhor. Pensou nos olhos perdidos da mãe, no sorriso triste do pai, e sentiu conforto em tê-los por perto. Respirou profundamente e esvaziou o peito com alívio. Foi então que se viu de relance no espelho e notou, pela primeira vez, o seu corpo coberto de escamas.
terça-feira, 16 de agosto de 2016
... e ficou por ali um tempo, mascando seu raminho de hortelã.
Eram três, o tempo todo juntos: Marcelo, Joana e Cabrito. Cabrito era o mais tranquilo. Enquanto as crianças corriam de um lado para outro, ele ficava ali parado, quieto, debaixo de um pé de árvore, mascando um talinho de grama. Pela idade, Cabrito já era Bode há muito tempo. Mas tinha sido Cabrito um dia e este dia marcara para sempre a sua história.
O céu estourava de luz amarela esmaecendo o azul sem nuvens. Dia muito quente, todo metal queimava. Mas as bicicletas estavam na sombra, encostadas desde a noite na parede da varanda, uma vermelha e outra amarela. Aro grande, as duas, um pouco altas para as crianças, que pilotavam em pé. Cabelos voando, um minuto depois passaram pela janela da sala gritando "Vovó a gente já volta!" A avó olhou de esguelha para ver se Cabrito ia junto. E ele ia. Trotando que nem cabrito novo, ficava sempre a 10 passos de cabrito das crianças. Elas paravam muito para ver uma coisa e outra. Era uma pedra diferente, com brilho de madrepérola, era a banca de mariola, que acabara de ser reabastecida, era um amigo que tinha uma bola de gude nova, era uma galinha com os pintinhos atravessando a rua... As crianças paravam muito e aí Cabrito aproveitava para descansar e analisar a situação: "acho que agora eles vão pro rio, vou ali por aquele canto porque nessa rua passa carro."
E assim, como quase todos os dias, as crianças acabavam por chegar a algum destino, como por exemplo o de hoje, que foi comprar dois saquinhos de cocô de rato, um biscoitinho muito gostoso, na mercearia da vila. Para Cabrito, deram um raminho de hortelã.
Na volta para casa, Cabrito veio na frente. Trotando e parando para esperar e trotando de novo, umas dez vezes depois chegou em casa. Olhou de esguelha pela janela da sala, pra ver se a avó estava dentro de casa. Estava. Cabrito foi então direto pra debaixo do pé de árvore descansar. Viu as crianças entrando, saltando e encostando as bicicletas de novo na parede da varanda. "Vovó, voltamos!" Cabrito olhou aquilo e ficou por ali um tempo, mascando seu raminho de hortelã.
O céu estourava de luz amarela esmaecendo o azul sem nuvens. Dia muito quente, todo metal queimava. Mas as bicicletas estavam na sombra, encostadas desde a noite na parede da varanda, uma vermelha e outra amarela. Aro grande, as duas, um pouco altas para as crianças, que pilotavam em pé. Cabelos voando, um minuto depois passaram pela janela da sala gritando "Vovó a gente já volta!" A avó olhou de esguelha para ver se Cabrito ia junto. E ele ia. Trotando que nem cabrito novo, ficava sempre a 10 passos de cabrito das crianças. Elas paravam muito para ver uma coisa e outra. Era uma pedra diferente, com brilho de madrepérola, era a banca de mariola, que acabara de ser reabastecida, era um amigo que tinha uma bola de gude nova, era uma galinha com os pintinhos atravessando a rua... As crianças paravam muito e aí Cabrito aproveitava para descansar e analisar a situação: "acho que agora eles vão pro rio, vou ali por aquele canto porque nessa rua passa carro."
E assim, como quase todos os dias, as crianças acabavam por chegar a algum destino, como por exemplo o de hoje, que foi comprar dois saquinhos de cocô de rato, um biscoitinho muito gostoso, na mercearia da vila. Para Cabrito, deram um raminho de hortelã.
Na volta para casa, Cabrito veio na frente. Trotando e parando para esperar e trotando de novo, umas dez vezes depois chegou em casa. Olhou de esguelha pela janela da sala, pra ver se a avó estava dentro de casa. Estava. Cabrito foi então direto pra debaixo do pé de árvore descansar. Viu as crianças entrando, saltando e encostando as bicicletas de novo na parede da varanda. "Vovó, voltamos!" Cabrito olhou aquilo e ficou por ali um tempo, mascando seu raminho de hortelã.
segunda-feira, 15 de agosto de 2016
Sabia, por exemplo, que gostava muito do som de sinos.
Não caminhava há muito tempo. Embora soubesse que queria, o querer era mental, não era físico. Pra ser físico, sabia também, tinha que forçar o primeiro passo, o segundo, os 100 primeiros. Aí o corpo aprendia a querer também e sozinho, arrastava daí por diante os mais variados desejos da mente.
Clara sabia que podia mais. Mas pensava que talvez devesse querer menos. Dirigindo sozinha pela estrada de Toulouse até as terras altas e cobertas de florestas de Languedoc-Roussillon, ia pensando que nunca tinha desejado estar ali, mas estava. Era uma região de campo e plantações, mas a França era quase que toda plantação. Ali, uvas e girassóis. Melhor vinho do que óleo, pensou, mas os campos de girassóis eram bem mais bonitos do que as feias parreiras enrugadas e secas. Justo, pensou.
Ligou o rádio, abaixou a janela e acendeu um cigarro. Faltava o conversível e o lenço nos cabelos, mas a sensação era de estar num filme dos anos 60. A música ajudava, os franceses são muito anos 60 mesmo. "Non, je ne regrette rien", na voz da Edith Piaf, arrepiava o corpo de Clara, que se sentia mais e mais imersa no passado e, assim como Edith, não lamentava nada e partia para o futuro com zero culpa.
Sozinha, ia para onde queria e a liberdade era confortável. Clara se conhecia cada dia mais um pouco, e gostava de quem era. Sabia, por exemplo, que gostava muito do som de sinos.
Clara sabia que podia mais. Mas pensava que talvez devesse querer menos. Dirigindo sozinha pela estrada de Toulouse até as terras altas e cobertas de florestas de Languedoc-Roussillon, ia pensando que nunca tinha desejado estar ali, mas estava. Era uma região de campo e plantações, mas a França era quase que toda plantação. Ali, uvas e girassóis. Melhor vinho do que óleo, pensou, mas os campos de girassóis eram bem mais bonitos do que as feias parreiras enrugadas e secas. Justo, pensou.
Ligou o rádio, abaixou a janela e acendeu um cigarro. Faltava o conversível e o lenço nos cabelos, mas a sensação era de estar num filme dos anos 60. A música ajudava, os franceses são muito anos 60 mesmo. "Non, je ne regrette rien", na voz da Edith Piaf, arrepiava o corpo de Clara, que se sentia mais e mais imersa no passado e, assim como Edith, não lamentava nada e partia para o futuro com zero culpa.
Sozinha, ia para onde queria e a liberdade era confortável. Clara se conhecia cada dia mais um pouco, e gostava de quem era. Sabia, por exemplo, que gostava muito do som de sinos.
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