terça-feira, 16 de agosto de 2016

... e ficou por ali um tempo, mascando seu raminho de hortelã.

Eram três, o tempo todo juntos: Marcelo, Joana e Cabrito. Cabrito era o mais tranquilo. Enquanto as crianças corriam de um lado para outro, ele ficava ali parado, quieto, debaixo de um pé de árvore, mascando um talinho de grama. Pela idade, Cabrito já era Bode há muito tempo. Mas tinha sido Cabrito um dia e este dia marcara para sempre a sua história.

O céu estourava de luz amarela esmaecendo o azul sem nuvens. Dia muito quente, todo metal queimava. Mas as bicicletas estavam na sombra, encostadas desde a noite na parede da varanda, uma vermelha e outra amarela. Aro grande, as duas, um pouco altas para as crianças, que pilotavam em pé. Cabelos voando, um minuto depois passaram pela janela da sala gritando "Vovó a gente já volta!" A avó olhou de esguelha para ver se Cabrito ia junto. E ele ia. Trotando que nem cabrito novo, ficava sempre a 10 passos de cabrito das crianças. Elas paravam muito para ver uma coisa e outra. Era uma pedra diferente, com brilho de madrepérola, era a banca de mariola, que acabara de ser reabastecida, era um amigo que tinha uma bola de gude nova, era uma galinha com os pintinhos atravessando a rua... As crianças paravam muito e aí Cabrito aproveitava para descansar e analisar a situação: "acho que agora eles vão pro rio, vou ali por aquele canto porque nessa rua passa carro."

E assim, como quase todos os dias, as crianças acabavam por chegar a algum destino, como por exemplo o de hoje, que foi comprar dois saquinhos de cocô de rato, um biscoitinho muito gostoso, na mercearia da vila. Para Cabrito, deram um raminho de hortelã.

Na volta para casa, Cabrito veio na frente. Trotando e parando para esperar e trotando de novo, umas dez vezes depois chegou em casa. Olhou de esguelha pela janela da sala, pra ver se a avó estava dentro de casa. Estava. Cabrito foi então direto pra debaixo do pé de árvore descansar. Viu as crianças entrando, saltando e encostando as bicicletas de novo na parede da varanda. "Vovó, voltamos!" Cabrito olhou aquilo e ficou por ali um tempo, mascando seu raminho de hortelã.

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