segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Sabia, por exemplo, que gostava muito do som de sinos.

Não caminhava há muito tempo. Embora soubesse que queria, o querer era mental, não era físico. Pra ser físico, sabia também, tinha que forçar o primeiro passo, o segundo, os 100 primeiros. Aí o corpo aprendia a querer também e sozinho, arrastava daí por diante os mais variados desejos da mente.


Clara sabia que podia mais. Mas pensava que talvez devesse querer menos. Dirigindo sozinha pela estrada de Toulouse até as terras altas e cobertas de florestas de Languedoc-Roussillon, ia pensando que nunca tinha desejado estar ali, mas estava. Era uma região de campo e plantações, mas a França era quase que toda plantação. Ali, uvas e girassóis. Melhor vinho do que óleo, pensou, mas os campos de girassóis eram bem mais bonitos do que as feias parreiras enrugadas e secas. Justo, pensou.

Ligou o rádio, abaixou a janela e acendeu um cigarro. Faltava o conversível e o lenço nos cabelos, mas a sensação era de estar num filme dos anos 60. A música ajudava, os franceses são muito anos 60 mesmo. "Non, je ne regrette rien", na voz da Edith Piaf, arrepiava o corpo de Clara, que se sentia mais e mais imersa no passado e, assim como Edith, não lamentava nada e partia para o futuro com zero culpa.

Sozinha, ia para onde queria e a liberdade era confortável. Clara se conhecia cada dia mais um pouco, e gostava de quem era. Sabia, por exemplo, que gostava muito do som de sinos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário