A casa estava um alvoroço desde a manhã. Todos acordados, preparando tudo da melhor maneira para receber visitas, primos distantes, casados, com filhos, que vinham visitar Clara e as crianças pela primeira vez desde o trágico acidente que levou seu marido.
Ana estava toda bonita em um lindo vestido e cabelo de festa, preso com uma fita cor de rosa. Usava sapatos novos e com eles corria pela casa encantada com o tac-tac que faziam no assoalho de madeira. Os meninos já estavam prontos também, de calça curta, camisas de manga comprida e gravatinhas. Clara e Gustavo estavam também muito bem vestidos, usando ambos tons de azul em suas roupas. O cabelo de Clara estava todo puxado para cima e ela trazia um enfeite feito de tecido branco bordado com pequenas pérolas e flores.
Fred e Inês tinham preparado um lauto almoço, cheio de delícias, e assim que declararam tudo pronto, correram todos para a porta para ver se avistavam os primos chegando. E passados uns 10 minutos, avistaram poeira na estrada, e sorriram.
- Ah, que bom! Vão chegar com a comida ainda quente! Devem estar famintos, a viagem é longa desde a casa deles até aqui!
Algum tempo depois a carruagem parou em frente à casa e foi um tal de beijos, abraços, olás e há quanto tempo querida, como vai meu irmão, fizeram boa viagem, este tipo de coisas que se diz a quem chega de visita.
As crianças logo se misturaram e sumiram de vista rapidamente. As mães ainda conseguiram gritar um "não demorem, o almoço já será servido!" e entraram na casa para se refrescarem um pouco. A limonada que Inês havia preparado desapareceu rapidamente entre cumprimentos e risadas de sejam bem-vindos.
Amanhã eu conto mais.
sábado, 27 de fevereiro de 2016
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016
Abraçou o filho e tiraram todos uma longa soneca.
Ana acordou assustada. Tinha tido um sonho ruim. Chorou alto o suficiente para acordar Clara, que veio em seu socorro. Os irmãos acordaram também e logo estavam os quatro juntos na cama de Ana, que começou a contar-lhes uma história para que talvez dormissem mais um pouquinho.
"Era uma vez um gatinho branco que queria ser preto. Tinha um pelo branco bem bonito, mas gostava de andar à noite e queria andar disfarçado. Não tinha a menor ideia sobre como realizar seu desejo, mas todo dia acordava e ia dormir com essa ideia na cabeça: quero ser preto. Numa noite especial, ele viu uma gata preta pulando de um lado para outro numa fábrica perto de casa. Ele miou alto e a gata olhou. Gostou dele de cara. Simpatizou mesmo. E aí ele, ainda na língua dos gatos, miou toda a sua história e elogiou a cor do pelo da gata. Ela disse "Se você conseguir pular essa cerca alta e vier aqui comigo, te mostro o meu segredo." O gatinho branco se esforçou bastante e conseguiu pular. Uma vez lá dentro e perto da gata, foi convidado a segui-la. Enquanto seguiam, se apresentaram: "Miau, miau, meu nome é Gal." "Miau, miau, meu nome é Mingau." E Gal logo mostrou à Mingau que havia um grande espaço cheio de carvão na fábrica. Pularam, pularam, brincaram, correram no pó de carvão. Antes de se despedirem, a gatinha mostrou um espelho e ele levou um susto porque viu dois gatos pretos e nenhum gato branco! Demorou um pouco a entender que o carvão tinha deixado ele preto. Mas acabou entendendo e foi embora satisfeito. Quando chegou em casa, a dona dele custou a perceber que ele era o seu gatinho. E quando percebeu, pegou ele e deu um banho nele, porque ela gostava dele branquinho. E daí para a frente a vida dele foi assim, alternada. De dia gato branquinho, de noite gato pretinho. Tomava muito banho, mas assim mesmo era bem feliz."
Quando acabou, só Pedro, o mais velho, continuava acordado. Até Clara estava com sono de novo. Abraçou o filho e tiraram todos uma longa soneca.
"Era uma vez um gatinho branco que queria ser preto. Tinha um pelo branco bem bonito, mas gostava de andar à noite e queria andar disfarçado. Não tinha a menor ideia sobre como realizar seu desejo, mas todo dia acordava e ia dormir com essa ideia na cabeça: quero ser preto. Numa noite especial, ele viu uma gata preta pulando de um lado para outro numa fábrica perto de casa. Ele miou alto e a gata olhou. Gostou dele de cara. Simpatizou mesmo. E aí ele, ainda na língua dos gatos, miou toda a sua história e elogiou a cor do pelo da gata. Ela disse "Se você conseguir pular essa cerca alta e vier aqui comigo, te mostro o meu segredo." O gatinho branco se esforçou bastante e conseguiu pular. Uma vez lá dentro e perto da gata, foi convidado a segui-la. Enquanto seguiam, se apresentaram: "Miau, miau, meu nome é Gal." "Miau, miau, meu nome é Mingau." E Gal logo mostrou à Mingau que havia um grande espaço cheio de carvão na fábrica. Pularam, pularam, brincaram, correram no pó de carvão. Antes de se despedirem, a gatinha mostrou um espelho e ele levou um susto porque viu dois gatos pretos e nenhum gato branco! Demorou um pouco a entender que o carvão tinha deixado ele preto. Mas acabou entendendo e foi embora satisfeito. Quando chegou em casa, a dona dele custou a perceber que ele era o seu gatinho. E quando percebeu, pegou ele e deu um banho nele, porque ela gostava dele branquinho. E daí para a frente a vida dele foi assim, alternada. De dia gato branquinho, de noite gato pretinho. Tomava muito banho, mas assim mesmo era bem feliz."
Quando acabou, só Pedro, o mais velho, continuava acordado. Até Clara estava com sono de novo. Abraçou o filho e tiraram todos uma longa soneca.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
Volto já.
Fred havia chegado bem cedo, ainda de madrugada. Tinha passado o fim de semana com seus pais, para cuidar um pouco da mãe, que estava adoentada. Logo que chegou, dirigiu-se à cozinha e encontrou Inês preparando o café.
- Olá Inês, bom dia, como vai? E como estão todos? Bem acomodados?, perguntou, oferecendo a ela ao mesmo tempo um belo ramalhete de flores do campo. - Com os cumprimentos de minha mãe., disse sorrindo.
- Ah, obrigada! Que lindas! Aqui estão todos bem, a menina é um amor e os meninos são como meninos, travessos às vezes. O senhor Gustavo está se divertindo, parece. E sua mãe, como está?
- Bem, melhorando aos poucos. Foi muito bom ter ido, ela ficou bem feliz em me ver. Já que tudo está bem por aqui, vou até o meu quarto deixar lá a minha mala e logo estarei de volta para ajudá-la. Até breve.
Inês sorriu e não conseguiu disfarçar um certo rubor. Fred era um homem muito gentil e ela estava pouco acostumada a receber delicadezas. Depositou as flores com cuidado na bancada, perto da pia, e foi até a sala. De lá voltou com um vaso de cristal esverdeado, que encheu com água. Colocou um pouquinho de açúcar também, seguindo os conselhos da avó. Cortou um pouquinho as pontas das hastes das flores e fez um belo arranjo. Com ele, enfeitou a mesa da sala, porque embora as flores tivessem sido dadas a ela, gostava de enfeitar a casa e agradar a todos.
Em instantes Fred surgiu novamente, já com a roupa de trabalho. Usava luvas brancas, terror da Inês, que se via obrigada a manter toda a casa livre de poeira. Enquanto o patrão morava sozinho, ela e Fred conseguiam dar conta de todo o serviço. Mas agora, com Clara e as crianças, parecia que haveria necessidade de contratarem alguma outra ajudante, ou para limpeza, ou para cozinhar. Veriam. Ela tentou iniciar uma conversa com Fred sobre isso, mas ele parecia bem distraído em pensamentos. Demorou a responder a contento aos seus olhares ligeiramente insistentes.
- Sim, Inês, perdoe-me. Me parece que você gostaria de conversar comigo? Eu estava aqui a pensar sobre uma ideia que tive durante a viagem. Mas posso falar sobre isso depois. Por favor...
- Eu estava pensando sobre pedirmos ao Sr. Gustavo para contratar uma nova ajudante... Com a família aumentada, eu já sinto medo de não conseguir manter o mesmo padrão de antes... O que acha, Fred? Acha impertinência minha?, perguntou, franzindo a testa ligeiramente.
Fred pensou um pouco antes de responder.
- Talvez. Talvez o Sr. pense que sim. Talvez pudéssemos nós dois rever as obrigações da casa e assim poderemos fazer uma nova partilha entre nós. Mas claro, posso também conversar com ele sobre isso, caso você prefira. Posso fazer isso amanhã, ou assim que pensarmos um pouco e chegarmos a um consenso, que tal?, e deu uma piscadinha de olhos para Inês.
Desta vez, ela não conseguiu nem disfarçar. Fred viu a moça ruborizar e achou graça. Sorriu, retirou a flor mais bonita que encontrou no vaso de cristal e deu a ela novamente.
- Esta é para você mesma, Inês. Enfeite o seu cabelo com ela. Você combina com flores. Nos vemos mais tarde, vou aproveitar esta manhã tão agradável para ir até o estábulo e trazer um bom leite para o café da manhã. Volto já.
- Olá Inês, bom dia, como vai? E como estão todos? Bem acomodados?, perguntou, oferecendo a ela ao mesmo tempo um belo ramalhete de flores do campo. - Com os cumprimentos de minha mãe., disse sorrindo.
- Ah, obrigada! Que lindas! Aqui estão todos bem, a menina é um amor e os meninos são como meninos, travessos às vezes. O senhor Gustavo está se divertindo, parece. E sua mãe, como está?
- Bem, melhorando aos poucos. Foi muito bom ter ido, ela ficou bem feliz em me ver. Já que tudo está bem por aqui, vou até o meu quarto deixar lá a minha mala e logo estarei de volta para ajudá-la. Até breve.
Inês sorriu e não conseguiu disfarçar um certo rubor. Fred era um homem muito gentil e ela estava pouco acostumada a receber delicadezas. Depositou as flores com cuidado na bancada, perto da pia, e foi até a sala. De lá voltou com um vaso de cristal esverdeado, que encheu com água. Colocou um pouquinho de açúcar também, seguindo os conselhos da avó. Cortou um pouquinho as pontas das hastes das flores e fez um belo arranjo. Com ele, enfeitou a mesa da sala, porque embora as flores tivessem sido dadas a ela, gostava de enfeitar a casa e agradar a todos.
Em instantes Fred surgiu novamente, já com a roupa de trabalho. Usava luvas brancas, terror da Inês, que se via obrigada a manter toda a casa livre de poeira. Enquanto o patrão morava sozinho, ela e Fred conseguiam dar conta de todo o serviço. Mas agora, com Clara e as crianças, parecia que haveria necessidade de contratarem alguma outra ajudante, ou para limpeza, ou para cozinhar. Veriam. Ela tentou iniciar uma conversa com Fred sobre isso, mas ele parecia bem distraído em pensamentos. Demorou a responder a contento aos seus olhares ligeiramente insistentes.
- Sim, Inês, perdoe-me. Me parece que você gostaria de conversar comigo? Eu estava aqui a pensar sobre uma ideia que tive durante a viagem. Mas posso falar sobre isso depois. Por favor...
- Eu estava pensando sobre pedirmos ao Sr. Gustavo para contratar uma nova ajudante... Com a família aumentada, eu já sinto medo de não conseguir manter o mesmo padrão de antes... O que acha, Fred? Acha impertinência minha?, perguntou, franzindo a testa ligeiramente.
Fred pensou um pouco antes de responder.
- Talvez. Talvez o Sr. pense que sim. Talvez pudéssemos nós dois rever as obrigações da casa e assim poderemos fazer uma nova partilha entre nós. Mas claro, posso também conversar com ele sobre isso, caso você prefira. Posso fazer isso amanhã, ou assim que pensarmos um pouco e chegarmos a um consenso, que tal?, e deu uma piscadinha de olhos para Inês.
Desta vez, ela não conseguiu nem disfarçar. Fred viu a moça ruborizar e achou graça. Sorriu, retirou a flor mais bonita que encontrou no vaso de cristal e deu a ela novamente.
- Esta é para você mesma, Inês. Enfeite o seu cabelo com ela. Você combina com flores. Nos vemos mais tarde, vou aproveitar esta manhã tão agradável para ir até o estábulo e trazer um bom leite para o café da manhã. Volto já.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2016
E nessa família, todos gostavam muito de fazer a vida doce.
Chamaram por Pedro também. Nada. Foram em direção ao lugar para onde Jonas estava apontando, uma mata mais fechada, à esquerda do laranjal. Clara pensou em cobras, onças, aranhas, todo tipo de bicho grande ou pequeno que poderia machucar seu filho querido. Embora procurasse manter o bom humor, ela ainda estava no fundo muito triste com a morte do marido, e frágil o suficiente para enlouquecer com uma outra perda. Crispou as mãos e correu em direção à mata. Antes dela, já ia Gustavo, pulando sobre paus e pedras para chegar logo ao menino.
Procuraram por algum tempo e já estavam ficando bem ansiosos quando ouviram um rosnado sobre suas cabeças. Assustaram-se bastante, e mais ainda quando de repente pulou uma coisa no meio deles: Pedro, com a cara mais sem vergonha do mundo: "Oi mãe! Oi tio! Enganei todo mundo!
Clara, de branca de susto passou à vermelha de raiva em um segundo.
- Pedro! Como que você faz uma coisa dessas, meu filho? Que susto!, e se abaixou para encarar o menino nos olhos e repreendê-lo, mas, feliz que estava por terem se acabado suas preocupações, abraçou-o com ternura e um certo resto de desespero.
Gustavo não quis dizer nada, mas passou o braço em torno dos ombros de Clara na volta para casa, como que a dar-lhe um apoio constante. Clara ia com Pedro pela mão e o pequeno Jonas no colo. Mas... e as laranjas!
Voltaram todos para onde tinham encontrado Jonas à procura do irmão. Encontraram o saco com as laranjas, que Gustavo carregou até em casa.
Clara contou o acontecido para Inês enquanto descascava as laranjas. Deixou as cascas mergulhadas em água enquanto deu banho nos meninos e vestiu os dois para tirarem uma soneca. Enquanto Inês cuidou do banho de Ana, Clara preparou a calda de açúcar e cozinhou nela as casquinhas de laranja cortadas bem fininhas. Quando as crianças acordaram, a casa cheirava a flor de laranjeira.
Almoçaram de olho na sobremesa, que todo mundo ganhou menos Pedro, como castigo pelo susto que havia causado pela manhã. Mas de noite, antes de dormir, até ele ganhou um pouquinho. Afinal, como dizem por aí, de amarga basta a vida. E nessa família, todos gostavam muito de fazer a vida doce.
Procuraram por algum tempo e já estavam ficando bem ansiosos quando ouviram um rosnado sobre suas cabeças. Assustaram-se bastante, e mais ainda quando de repente pulou uma coisa no meio deles: Pedro, com a cara mais sem vergonha do mundo: "Oi mãe! Oi tio! Enganei todo mundo!
Clara, de branca de susto passou à vermelha de raiva em um segundo.
- Pedro! Como que você faz uma coisa dessas, meu filho? Que susto!, e se abaixou para encarar o menino nos olhos e repreendê-lo, mas, feliz que estava por terem se acabado suas preocupações, abraçou-o com ternura e um certo resto de desespero.
Gustavo não quis dizer nada, mas passou o braço em torno dos ombros de Clara na volta para casa, como que a dar-lhe um apoio constante. Clara ia com Pedro pela mão e o pequeno Jonas no colo. Mas... e as laranjas!
Voltaram todos para onde tinham encontrado Jonas à procura do irmão. Encontraram o saco com as laranjas, que Gustavo carregou até em casa.
Clara contou o acontecido para Inês enquanto descascava as laranjas. Deixou as cascas mergulhadas em água enquanto deu banho nos meninos e vestiu os dois para tirarem uma soneca. Enquanto Inês cuidou do banho de Ana, Clara preparou a calda de açúcar e cozinhou nela as casquinhas de laranja cortadas bem fininhas. Quando as crianças acordaram, a casa cheirava a flor de laranjeira.
Almoçaram de olho na sobremesa, que todo mundo ganhou menos Pedro, como castigo pelo susto que havia causado pela manhã. Mas de noite, antes de dormir, até ele ganhou um pouquinho. Afinal, como dizem por aí, de amarga basta a vida. E nessa família, todos gostavam muito de fazer a vida doce.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
Não sei se continua, mas vamos ver.
- Ah, desculpe a demora, mas Ana estava um pouco emburrada porque queria vir passear também. Inês acabou por convencê-la de que era melhor ser sua ajudante na cozinha, vão preparar uns biscoitos., disse Ana, sorrindo.
- Sem problema, fiquei aqui observando os pássaros. Toda manhã eles vem comer o que colocamos para eles e oferecem um bonito espetáculo. Vamos então, ao passeio e às laranjas?
Clara pensava como era estranho estar se relacionando tão bem com o tio que mal conhecia. Como era simpático! Ela havia imaginado que um homem recluso, amante da solidão, seria um tipo rancoroso, ou pelo menos antipático. Mas Gustavo a surpreendia com sua jovialidade e disposição para desfrutar de sua companhia.
- Ah, como eu gosto de manhãs de sol depois de noites de chuva! Tudo está tão bonito e fresco e limpo! Não acha Clara, que o ar fica mais respirável? Na estação mais seca, há tanta poeira que me sinto cansado e acalorado só de olhar.
- Eu também adoro manhãs assim. Apesar das poças d'água, que não ajudam em nada a minha elegância.
Continuaram andando até o laranjal. Os meninos deviam estar por ali, catando laranjas como ela havia pedido, mas não se via os dois em nenhum lugar. Clara ficou um pouco preocupada, mas resolveu ficar calada.
O laranjal era grande e estavam em boa época, havia muitas frutas já maduras. Gustavo mostrou a ela como o seu avô tinha ensinado a ele, quando era pequeno, a descascar a laranja em uma única tira comprida. Ela ensinou a ele a fazer um único furo na parte superior da laranja, método bastante apreciado, principalmente pelas crianças.
Colheram muitas laranjas, mais do que suficientes para pelo menos 1 quilo de doce.
Voltavam para casa quando ouviram a voz de Jonas chamando repetidas vezes pelo irmão.
- Pedro, Pedro! Sai daí, mamãe não vai gostar! Pedro!
Clara e Gustavo correram para perto de onde estava Jonas, mas embora o menino chamasse pelo irmão, não conseguiam ver Pedro em lugar nenhum.
---
Não sei se continua, mas vamos ver.
- Sem problema, fiquei aqui observando os pássaros. Toda manhã eles vem comer o que colocamos para eles e oferecem um bonito espetáculo. Vamos então, ao passeio e às laranjas?
Clara pensava como era estranho estar se relacionando tão bem com o tio que mal conhecia. Como era simpático! Ela havia imaginado que um homem recluso, amante da solidão, seria um tipo rancoroso, ou pelo menos antipático. Mas Gustavo a surpreendia com sua jovialidade e disposição para desfrutar de sua companhia.
- Ah, como eu gosto de manhãs de sol depois de noites de chuva! Tudo está tão bonito e fresco e limpo! Não acha Clara, que o ar fica mais respirável? Na estação mais seca, há tanta poeira que me sinto cansado e acalorado só de olhar.
- Eu também adoro manhãs assim. Apesar das poças d'água, que não ajudam em nada a minha elegância.
Continuaram andando até o laranjal. Os meninos deviam estar por ali, catando laranjas como ela havia pedido, mas não se via os dois em nenhum lugar. Clara ficou um pouco preocupada, mas resolveu ficar calada.
O laranjal era grande e estavam em boa época, havia muitas frutas já maduras. Gustavo mostrou a ela como o seu avô tinha ensinado a ele, quando era pequeno, a descascar a laranja em uma única tira comprida. Ela ensinou a ele a fazer um único furo na parte superior da laranja, método bastante apreciado, principalmente pelas crianças.
Colheram muitas laranjas, mais do que suficientes para pelo menos 1 quilo de doce.
Voltavam para casa quando ouviram a voz de Jonas chamando repetidas vezes pelo irmão.
- Pedro, Pedro! Sai daí, mamãe não vai gostar! Pedro!
Clara e Gustavo correram para perto de onde estava Jonas, mas embora o menino chamasse pelo irmão, não conseguiam ver Pedro em lugar nenhum.
---
Não sei se continua, mas vamos ver.
domingo, 21 de fevereiro de 2016
Hoje continuou. Vejamos amanhã.
No dia seguinte acordaram todos muito cedo. Os meninos correram logo para fora, chapinhando nas poças d'água e deixando as camisolas bem sujas. A governanta, Inês, que ainda não sabia seus nomes, gritava "Parem com isso, vocês! Saiam daí meninos, venham trocar de roupa! Meninos!" Clara veio em seu socorro, colocando Pedro e Jonas para dentro com uma reprimenda e um pedido de desculpas.
- Mas vocês dois, hein, que feio! Subam já e troquem esta roupa por roupas de brincar!
Ana ainda estava bem sonolenta, e queria colo. Inês veio em seu socorro e disse à Clara que ela poria a mesa para o café da manhã. Pouco tempo depois, a família reunida desfrutava de pães e bolos quentinhos, café e chá, leite fresco, queijo e manteiga feitos na casa e uma deliciosa omelete com ovos do quintal. Gustavo veio se juntar a eles no final, pois não gostava de comer pela manhã. Quis apenas uma xícara de café, que tomou enquanto lia um trecho de Irmãos Karamazov para Clara e as crianças:
“Sobretudo não minta a si mesmo. Aquele que mente a si mesmo e escuta sua própria mentira vai ao ponto de não mais distinguir a verdade, nem em si, nem em torno de si; perde pois o respeito de si e dos outros. Não respeitando ninguém, deixa de amar; e para se ocupar, e para se distrair, na ausência de amor, entrega-se às paixões e aos gozos grosseiros; chega até a bestialidade em seus vícios, e tudo isso provém da mentira contínua a si mesmo e aos outros. Aquele que mente a si mesmo pode ser o primeiro a ofender-se."
- O que acha, Clara, da mentira? Acordei com este trecho do livro na cabeça. Acho eu que a mentira tem seus méritos, desde que não cause mal algum.
Clara colocou Ana no chão e deu à menina sua boneca de pano para brincar. Liberou os meninos para irem para fora novamente, recomendando que tomassem cuidado e que se divertissem até pouco antes da hora do almoço. Pediu também que trouxessem para ela algumas laranjas quando voltassem, queria fazer um doce para o lanche da tarde.
Levantou então os olhos e encarou Gustavo. Ele não parecia ser 10 anos mais velho que ela. Era um homem muito bonito. Seus cabelos apenas começando a ficar grisalhos lhe davam um ar de seriedade que os olhos brincalhões rejuvenesciam.
- Concordo com você, quando diz que uma pequena mentira que não cause mal algum não é realmente um problema. Mas entendo quando o autor afirma que mentir para si mesmo, renegando nossos desejos mais sinceros, nossa verdadeira natureza, pode nos levar a uma vida de vícios e ofensas pessoais, longe de qualquer possibilidade de amor. Acho muito bonito e profundo este trecho.
Gustavo suspirou e fechou os olhos por alguns instantes. Depois, olhando para ela e sorrindo, sugeriu:
- Pois a minha verdade mais absoluta no momento é que eu estou doido para dar uma volta lá fora. Depois da chuva fica tudo muito bonito, limpo e fresco. Vamos? Passeamos um pouco e voltamos em seguida com as suas laranjas.
- Será um prazer. Me dê só alguns instantes para que eu coloque sapatos mais apropriados. Vou também pedir a Inês que olhe Ana para mim. Volto já.
--------------
Hoje continuou. Vejamos amanhã.
- Mas vocês dois, hein, que feio! Subam já e troquem esta roupa por roupas de brincar!
Ana ainda estava bem sonolenta, e queria colo. Inês veio em seu socorro e disse à Clara que ela poria a mesa para o café da manhã. Pouco tempo depois, a família reunida desfrutava de pães e bolos quentinhos, café e chá, leite fresco, queijo e manteiga feitos na casa e uma deliciosa omelete com ovos do quintal. Gustavo veio se juntar a eles no final, pois não gostava de comer pela manhã. Quis apenas uma xícara de café, que tomou enquanto lia um trecho de Irmãos Karamazov para Clara e as crianças:
“Sobretudo não minta a si mesmo. Aquele que mente a si mesmo e escuta sua própria mentira vai ao ponto de não mais distinguir a verdade, nem em si, nem em torno de si; perde pois o respeito de si e dos outros. Não respeitando ninguém, deixa de amar; e para se ocupar, e para se distrair, na ausência de amor, entrega-se às paixões e aos gozos grosseiros; chega até a bestialidade em seus vícios, e tudo isso provém da mentira contínua a si mesmo e aos outros. Aquele que mente a si mesmo pode ser o primeiro a ofender-se."
- O que acha, Clara, da mentira? Acordei com este trecho do livro na cabeça. Acho eu que a mentira tem seus méritos, desde que não cause mal algum.
Clara colocou Ana no chão e deu à menina sua boneca de pano para brincar. Liberou os meninos para irem para fora novamente, recomendando que tomassem cuidado e que se divertissem até pouco antes da hora do almoço. Pediu também que trouxessem para ela algumas laranjas quando voltassem, queria fazer um doce para o lanche da tarde.
Levantou então os olhos e encarou Gustavo. Ele não parecia ser 10 anos mais velho que ela. Era um homem muito bonito. Seus cabelos apenas começando a ficar grisalhos lhe davam um ar de seriedade que os olhos brincalhões rejuvenesciam.
- Concordo com você, quando diz que uma pequena mentira que não cause mal algum não é realmente um problema. Mas entendo quando o autor afirma que mentir para si mesmo, renegando nossos desejos mais sinceros, nossa verdadeira natureza, pode nos levar a uma vida de vícios e ofensas pessoais, longe de qualquer possibilidade de amor. Acho muito bonito e profundo este trecho.
Gustavo suspirou e fechou os olhos por alguns instantes. Depois, olhando para ela e sorrindo, sugeriu:
- Pois a minha verdade mais absoluta no momento é que eu estou doido para dar uma volta lá fora. Depois da chuva fica tudo muito bonito, limpo e fresco. Vamos? Passeamos um pouco e voltamos em seguida com as suas laranjas.
- Será um prazer. Me dê só alguns instantes para que eu coloque sapatos mais apropriados. Vou também pedir a Inês que olhe Ana para mim. Volto já.
--------------
Hoje continuou. Vejamos amanhã.
sábado, 20 de fevereiro de 2016
... continua. Ou não.
Trovejava. Chovia muito. Os relâmpagos, um atrás do outro, iluminavam a estrada por segundos e logo tudo ficava escuro novamente. A carruagem prosseguia com dificuldade mas já se podia ver a casa antiga e exageradamente grande no fim da estrada. Algumas chicotadas a mais no lombo dos cavalos e logo estavam saltando para se molharem todos na corrida até o porta. Fred, o mordomo, esperava com algumas toalhas.
- Entrem, entrem. Há chá e sopa quentes na cozinha e o Senhor Gustavo já vai descer para recebê-los.
Ana, a mais nova, estava excitadíssima. Nunca tinha estado numa casa tão grande e bonita. Não conseguia despregar os olhos do teto todo pintado de azul e dourado, com figuras humanas e anjos e flores.
Jonas, o menino mais velho e Pedro, o irmão do meio, já estavam brincando no chão com os cachorros mais bonitos que já tinham visto na vida.
Clara, a mãe das crianças, estava ainda orientando os carregadores até que todas as caixas com seus pertences foram trazidas para dentro da casa. Seu tio, solteirão e com um apreço especial pela solidão, tinha se compadecido dela e convidado a sobrinha para morar com ele quando soube da morte prematura de seu marido.
Ouviram seus passos descendo a bela escada de madeira e as crianças se perfilaram junto à mãe para cumprimentá-lo com reverências.
- Oh, deixem disso, sejamos menos formais, estamos em família!, disse abrindo um largo sorriso, o que encheu o coração de Clara de sossego e alegria.
... continua. Ou não.
- Entrem, entrem. Há chá e sopa quentes na cozinha e o Senhor Gustavo já vai descer para recebê-los.
Ana, a mais nova, estava excitadíssima. Nunca tinha estado numa casa tão grande e bonita. Não conseguia despregar os olhos do teto todo pintado de azul e dourado, com figuras humanas e anjos e flores.
Jonas, o menino mais velho e Pedro, o irmão do meio, já estavam brincando no chão com os cachorros mais bonitos que já tinham visto na vida.
Clara, a mãe das crianças, estava ainda orientando os carregadores até que todas as caixas com seus pertences foram trazidas para dentro da casa. Seu tio, solteirão e com um apreço especial pela solidão, tinha se compadecido dela e convidado a sobrinha para morar com ele quando soube da morte prematura de seu marido.
Ouviram seus passos descendo a bela escada de madeira e as crianças se perfilaram junto à mãe para cumprimentá-lo com reverências.
- Oh, deixem disso, sejamos menos formais, estamos em família!, disse abrindo um largo sorriso, o que encheu o coração de Clara de sossego e alegria.
... continua. Ou não.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016
É isso, por hoje. Manias.
Tinha mania de arrumação. Desde pequena, bastava saber que ia receber visita, que arrumava, arrumava, limpava, organizava e aí recebia a visita toda feliz. E depois que a visita ia embora, arrumava, arrumava, limpava, lavava, guardava, e aí ia dormir toda feliz. O pai dizia que tinha dia que ela acordava com o arrumador aberto. Quando descobriu os sprays de cheiro bom, usava tanto que quase matava todo mundo em casa de enjôo.
E assim seguiu na vida. Juntava coisas por categorias. E o que não entrava em categoria alguma, ia para a caixinha das "sem categoria". Um dia, juntava duas ou três coisas parecidas por algum critério e pronto, saíam da caixa geral para uma caixa própria.
Era assim e é assim a vida dela. Arrumadeira por excelência e destino.
Mas havia uma pessoa na família que era um pouco mais organizada ainda. Essa tinha, por exemplo, mania de guardar tampa de caneta Bic. Vai que um dia ela acha uma caneta sem tampa, o problema já estava resolvido por antecipação. E um dia ela foi com a mãe na casa dessa tia mais doidinha que ela. A mãe usou o telefone e a depois disso viu que a tia começou a ficar desconfortável na poltrona onde até então estava sentada tomando um chazinho. Até que, na primeira oportunidade, a tia levantou-se, foi até o aparelho de telefone recentemente usado e deu uma viradinha nele de uns 15 graus. Aí sim, respirou e pode conversar novamente. Tia querida essa. E um pouquinho biruta.
É isso, por hoje. Manias.
E assim seguiu na vida. Juntava coisas por categorias. E o que não entrava em categoria alguma, ia para a caixinha das "sem categoria". Um dia, juntava duas ou três coisas parecidas por algum critério e pronto, saíam da caixa geral para uma caixa própria.
Era assim e é assim a vida dela. Arrumadeira por excelência e destino.
Mas havia uma pessoa na família que era um pouco mais organizada ainda. Essa tinha, por exemplo, mania de guardar tampa de caneta Bic. Vai que um dia ela acha uma caneta sem tampa, o problema já estava resolvido por antecipação. E um dia ela foi com a mãe na casa dessa tia mais doidinha que ela. A mãe usou o telefone e a depois disso viu que a tia começou a ficar desconfortável na poltrona onde até então estava sentada tomando um chazinho. Até que, na primeira oportunidade, a tia levantou-se, foi até o aparelho de telefone recentemente usado e deu uma viradinha nele de uns 15 graus. Aí sim, respirou e pode conversar novamente. Tia querida essa. E um pouquinho biruta.
É isso, por hoje. Manias.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016
Uma historinha fofa de você.
Ela era tão bonitinha, tão pequenininha, uma garotinha muito, muito fofa, que gostava de histórias fofas como ela. Tinha uma carinha linda, uma boquinha igual a um coraçãozinho e um cabelinho liso cor de mel com uma franjinha muito simpática. A prima também era uma garotinha, mais velha, mais comprida e mais magrela. Moravam em cidades diferentes, mas às vezes a prima comprida visitava a prima neném. E aí, passeavam juntas. Passeavam nas montanhas bonitas, perto de casa, caminhando por estradas e matos e tendo como principais atividades: encontrar morangos silvestres e comer a maioria, sempre levando um ou dois de volta para casa, para distribuir para as famílias. E catar flores e flores e flores de todo tipo e beleza e cores e espetar todas elas no cabelo da pequenininha, que ficava mais linda ainda, aos olhos da prima e de todos. Uma flor de menininha. Elas cresceram bastante, estudaram, namoraram, casaram, tiveram filhos e ainda continuam muito amigas até hoje. Duas lindas. :)
Viu, Vivi? Uma historinha fofa de você.
Viu, Vivi? Uma historinha fofa de você.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016
Uma pena, tão jovem.
Todas as vezes em que passava por aquela rua, especialmente em frente à casa de dois andares pintada de amarelo, sentia-se mal. Arrepios, enjôo, sensação de que ia desmaiar não eram incomuns. Evitava ao máximo passar por ali, mas ao mesmo tempo, achava aquilo tão intrigante que de vez em quando não resistia. Ao invés de seguir em frente, dava a volta no quarteirão e arriscava. Batata. Todas as vezes, uma sensação qualquer, estranha e fúnebre.
Já tinha perguntado a várias pessoas de quem era a casa, porque nunca tinha encontrado alguém lá.
- É de um moço que vem às vezes, nem sempre. Não sei o nome dele.
- É de um moço triste, que quase não aparece. Dizem que vive em Minas Gerais e só vem aqui para pegar a correspondência.
- Ah, é de um moço que se mudou. Eu soube que ele não quer vender a casa porque morou aí com a família. Foi para Minas, vem de vez em quando...
Curioso era o fato de que ele se sentia doente toda vez que passava ali. Mais curioso ainda, era que ele ficava cada vez com mais vontade de entrar na casa, descobrir seus segredos. E agora que sabia que o dono só vinha às vezes, resolveu que ia se aventurar.
Na semana seguinte saiu de casa cedo, beijou a filha na testa, abraçou a mulher e disse que voltava para jantar. Elas lhe desejaram um bom dia, ele tomou o último gole de café e saiu apressado. Na esquina, ligou para o escritório e disse que ia chegar mais tarde. Tomou coragem e no caminho para a casa amarela reparou que estava nervoso, mais do que uma vez. Parava, respirava, continuava. Não era possível conviver por mais tempo com esse medo doido.
Chegou perto da casa e reparou que não havia ninguém. A rua também estava vazia e calma. Resolveu pular o muro e alguns arranhões depois, estava lá dentro. "Nossa, que sensação horrível.", pensou. Estava ficando muito enjoado e tonto. Mas continuou firme em direção à porta principal. Surpreendentemente, encontrava-se destrancada. Suava frio e enxugou a testa com as costas da mão antes de empurrar a porta. Sentiu, pela primeira vez depois de muitos e muitos anos, um perfume doce que custou a lembrar de onde conhecia.
- Mãe!
Não podia acreditar no que via. Sua mãe querida, morta havia anos, lá estava, de costas, na cozinha, como sempre, preparando algo para o café da manhã. O pai, também falecido, estava sentado à mesa, lendo o jornal. Ambos se viraram para ele com surpresa, mas não por outra razão do que pelo grito que ele havia deixado escapar.
- O que foi, meu filho? Dormiu mal?
Quando olhou para si mesmo, era apenas um garoto pequeno, de pijamas ainda, um pouco enjoado pela mistura de sono, cheiro de bacon e perfume de flores da mãe.
Lá fora, na rua, as pessoas se aglomeravam perto do muro. O corpo do rapaz estava caído na calçada, provavelmente havia morrido em consequência da queda quando tentava escalar o muro alto. Uma pena, tão jovem.
Já tinha perguntado a várias pessoas de quem era a casa, porque nunca tinha encontrado alguém lá.
- É de um moço que vem às vezes, nem sempre. Não sei o nome dele.
- É de um moço triste, que quase não aparece. Dizem que vive em Minas Gerais e só vem aqui para pegar a correspondência.
- Ah, é de um moço que se mudou. Eu soube que ele não quer vender a casa porque morou aí com a família. Foi para Minas, vem de vez em quando...
Curioso era o fato de que ele se sentia doente toda vez que passava ali. Mais curioso ainda, era que ele ficava cada vez com mais vontade de entrar na casa, descobrir seus segredos. E agora que sabia que o dono só vinha às vezes, resolveu que ia se aventurar.
Na semana seguinte saiu de casa cedo, beijou a filha na testa, abraçou a mulher e disse que voltava para jantar. Elas lhe desejaram um bom dia, ele tomou o último gole de café e saiu apressado. Na esquina, ligou para o escritório e disse que ia chegar mais tarde. Tomou coragem e no caminho para a casa amarela reparou que estava nervoso, mais do que uma vez. Parava, respirava, continuava. Não era possível conviver por mais tempo com esse medo doido.
Chegou perto da casa e reparou que não havia ninguém. A rua também estava vazia e calma. Resolveu pular o muro e alguns arranhões depois, estava lá dentro. "Nossa, que sensação horrível.", pensou. Estava ficando muito enjoado e tonto. Mas continuou firme em direção à porta principal. Surpreendentemente, encontrava-se destrancada. Suava frio e enxugou a testa com as costas da mão antes de empurrar a porta. Sentiu, pela primeira vez depois de muitos e muitos anos, um perfume doce que custou a lembrar de onde conhecia.
- Mãe!
Não podia acreditar no que via. Sua mãe querida, morta havia anos, lá estava, de costas, na cozinha, como sempre, preparando algo para o café da manhã. O pai, também falecido, estava sentado à mesa, lendo o jornal. Ambos se viraram para ele com surpresa, mas não por outra razão do que pelo grito que ele havia deixado escapar.
- O que foi, meu filho? Dormiu mal?
Quando olhou para si mesmo, era apenas um garoto pequeno, de pijamas ainda, um pouco enjoado pela mistura de sono, cheiro de bacon e perfume de flores da mãe.
Lá fora, na rua, as pessoas se aglomeravam perto do muro. O corpo do rapaz estava caído na calçada, provavelmente havia morrido em consequência da queda quando tentava escalar o muro alto. Uma pena, tão jovem.
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
Ela já vai fazer 80 anos e está ficando craque.
Ela tinha visto o abiu na árvore quando ele ainda estava beeem pequenininho e verde. Uma dificuldade para qualquer outra pessoa achar a frutinha, da cor das folhas, mas ela via na hora: "Ali!" Ao alcance da mão. O abiu foi crescendo, crescendo, verde, verde, verde... até que um dia, já maiorzinho mesmo, começou a amarelar. E aí vimos que eram 4 ou 5 na árvore toda: um impossível de pegar, de tão no alto, foi deixado para os passarinhos; três, a filha, um pouquinho ansiosa, pegou ainda ligeiramente verdes perto do cabinho. E o dela ela não quis pegar. "Ainda está verde em volta do cabinho." "Ô mãe, pega logo esse abiu porque vai que acontece alguma coisa, pelo amor de Deus pega ele logo, mãe." "Nããã... Vamos aguardar." Até que um dia, o abiu apareceu num pratinho na cozinha. Alguém, que não ela nem a filha dela, pegou ele na árvore e colocou no pratinho. A filha pensou que ela fosse ficar triste. Mas não. Ela aceitou com normalidade os fatos da vida. Ela já vai fazer 80 anos e está ficando craque.
Foto obtida em http://anapaulafaraujo.blogspot.com.br/2014/05/abiu.html
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016
... e nunca mais conseguiu tirar Pedro do pensamento.
E quando não se tem inspiração nenhuma, a gente cata palavras no vento e tenta fazer alguma coisa com elas.
Minhas palavras no vento hoje são: sol, arte e pensamento.
Então, num dia de sol, Marta estava relaxando no jardim de casa, ali, bem onde tinha sombra, debaixo da jabuticabeira. A jabuticabeira da casa de Marta não era assim dessas que se planta hoje em dia, pequenininhas e já abusadas o suficiente para gerar flores e frutas deliciosas. A dela era enorme, do tipo que a gente escala e fica lá em cima, horas, só estalando jabuticaba madura e cuspindo o caroço longe. Pois ali estava Marta, num dia de sol, debaixo da sombra da jabuticabeira da casa dela.
Foi quando Pedro chamou no portão. Pedro é artista e vende sua arte em brincos, pulseiras e anéis feitos com muita cor e juventude. Marta levantou e foi ver quem era. Abriu uma portinha e viu a carinha do rapaz. Disse: "Não, obrigada, hoje não vou comprar nada." Pedro se despediu com um sorriso e Marta com outro. Fechou a portinha e voltou para a sombra.
Até que seus olhos foram ficando pesados e seu corpo bem relaxado. Marta adormeceu e sonhou com Pedro. Ela estava na praia, era jovem como ele, tinha muitas pulseiras enfeitando braços e tornozelos. Os cabelos voavam, os dentes brilhavam, o corpo se deixava levar pelas ondas pra dentro e pra fora da praia. Ficou ali muito tempo, só boiando, furando onda, jogando água pra cima pra ver as gotas voltarem pro mar. A Marta do sonho viu Pedro na areia. E achou ele mais lindo que tudo. E foi lá, conversar com ele. Ele também achou Marta bonita e quis continuar conversando depois da praia. Caminharam juntos até a casa dela e na despedida, ele disse "A gente se vê.", sabendo que ia acontecer de verdade. Os dois sorriram quando Marta fechou o portão atrás dela.
Marta acordou com uma picadinha de formiga no dedo do pé. Afastou a formiga, se espreguiçou e viu que já estava tarde, que tinha dormido horas. Levantou devagarzinho, recolheu a canga do chão e andou até a casa. Esticou a canga na cerca da varanda, ajeitou uma mecha de cabelo que estava fazendo cosquinha na boca e nunca mais conseguiu tirar Pedro do pensamento.
Minhas palavras no vento hoje são: sol, arte e pensamento.
Então, num dia de sol, Marta estava relaxando no jardim de casa, ali, bem onde tinha sombra, debaixo da jabuticabeira. A jabuticabeira da casa de Marta não era assim dessas que se planta hoje em dia, pequenininhas e já abusadas o suficiente para gerar flores e frutas deliciosas. A dela era enorme, do tipo que a gente escala e fica lá em cima, horas, só estalando jabuticaba madura e cuspindo o caroço longe. Pois ali estava Marta, num dia de sol, debaixo da sombra da jabuticabeira da casa dela.
Foi quando Pedro chamou no portão. Pedro é artista e vende sua arte em brincos, pulseiras e anéis feitos com muita cor e juventude. Marta levantou e foi ver quem era. Abriu uma portinha e viu a carinha do rapaz. Disse: "Não, obrigada, hoje não vou comprar nada." Pedro se despediu com um sorriso e Marta com outro. Fechou a portinha e voltou para a sombra.
Até que seus olhos foram ficando pesados e seu corpo bem relaxado. Marta adormeceu e sonhou com Pedro. Ela estava na praia, era jovem como ele, tinha muitas pulseiras enfeitando braços e tornozelos. Os cabelos voavam, os dentes brilhavam, o corpo se deixava levar pelas ondas pra dentro e pra fora da praia. Ficou ali muito tempo, só boiando, furando onda, jogando água pra cima pra ver as gotas voltarem pro mar. A Marta do sonho viu Pedro na areia. E achou ele mais lindo que tudo. E foi lá, conversar com ele. Ele também achou Marta bonita e quis continuar conversando depois da praia. Caminharam juntos até a casa dela e na despedida, ele disse "A gente se vê.", sabendo que ia acontecer de verdade. Os dois sorriram quando Marta fechou o portão atrás dela.
Marta acordou com uma picadinha de formiga no dedo do pé. Afastou a formiga, se espreguiçou e viu que já estava tarde, que tinha dormido horas. Levantou devagarzinho, recolheu a canga do chão e andou até a casa. Esticou a canga na cerca da varanda, ajeitou uma mecha de cabelo que estava fazendo cosquinha na boca e nunca mais conseguiu tirar Pedro do pensamento.
sábado, 13 de fevereiro de 2016
Que bom que eu vou te ver semana que vem. Beijo!
Era uma vez uma menininha tão pequena que ainda confundia pés e mãos na hora de segurar os seus livros. Ficava lá, lendo, blá ba bá prrr aaahhhhhh, e usando os pezinhos assim que nem mesmo um macaquinho. E abria uma página, outra, e lia bem alto o ba ba prr aaaahhhh dela.
Era uma vez a mesma menininha, que era tão pequena que estava ainda aprendendo a desenhar no papel com giz de cera. E aí, pra fazer um riscado, segurava o giz e balançava o corpo todo, inclusive o giz na mão, contra o papel, que é o que no final das contas vai dar o resultado que ela quer. Mas o balanço dela ela ainda começa pelo quadril mesmo. E o risco ainda está fraquinho, um risquinho de nada, às vezes, mas é assim que se aprende, fazendo.
Era uma vez uma menininha tão pequena que tinha acabado de aprender a colocar uma fralda na frente do rosto para se esconder do pai. Não via o pai, acreditava que ele não estava vendo ela. Que nem todas as crianças, nesta fase, mas com muita graça e esperteza.
Era uma vez uma menininha de sorriso lindo, alegre até nos olhos e de cabelo ruivo.
Alice, estou com saudades de você. Que bom que eu vou te ver semana que vem. Beijo!
Era uma vez a mesma menininha, que era tão pequena que estava ainda aprendendo a desenhar no papel com giz de cera. E aí, pra fazer um riscado, segurava o giz e balançava o corpo todo, inclusive o giz na mão, contra o papel, que é o que no final das contas vai dar o resultado que ela quer. Mas o balanço dela ela ainda começa pelo quadril mesmo. E o risco ainda está fraquinho, um risquinho de nada, às vezes, mas é assim que se aprende, fazendo.
Era uma vez uma menininha tão pequena que tinha acabado de aprender a colocar uma fralda na frente do rosto para se esconder do pai. Não via o pai, acreditava que ele não estava vendo ela. Que nem todas as crianças, nesta fase, mas com muita graça e esperteza.
Era uma vez uma menininha de sorriso lindo, alegre até nos olhos e de cabelo ruivo.
Alice, estou com saudades de você. Que bom que eu vou te ver semana que vem. Beijo!
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016
Uma estrelinha que sabia muito bem o que era pessoa.
Era uma vez uma estrela do mar que não sabia o que era pessoa. Ela ficava ali na beirada, sendo balançada pelas ondas do mar, arrastando a barriga na areia, e de vez em quando via um peixe ou outro. E também, de vez em quando, uma estrela do mar ou outra. Mas pessoa, ela nunca tinha visto. Até que um dia um menininho muito bacana, comedor de rúcula, saiu da cama dele e disse assim pro pai: "Pai, me leva pra ver o mar. Acordei com vontade de ver o brilho do sol na água." E o pai, que era muito amigo do filho, fez um cafezinho com pão da casa para eles, deram um beijinho na mãe do menino, e foram-se embora ver o mar.
Quando chegou lá, naquele mundão de praia e beleza, o menino largou da mão do pai e correu para a água. O mar estava bem calminho e transparente. E o menino entrou no mar. Ficou parado lá, admirando os sonhados brilhos e também feliz de ver os seus dedos dos pés lá dentro da água, meio cobertos de areia dourada. Pareciam umas minhoquinhas felizes. Estava bem tranquilo e distraído, quando sentiu uma cosquinha no dedo mindinho do pé direito. Ui! Que susto! Uma estrelinha tinha caído do céu e estava ali bem pertinho dele! "Pai! Vem ver a estrelinha caída! Bem bonita, ela!" O pai, que gostava demais do menino e também de estrelas, veio correndo. Quase que pisa nela, mas o menino disse: "Cuidado, pai!", e ele diminuiu o passo e veio chegando mais devagarzinho.
Com todo carinho, pegou a estrelinha e os dois sentaram na areia pra ver melhor. Ela era bem bonitinha e eles ficaram ali respirando juntos e sentiram que o mar tinha invadido os olhos deles um pouquinho, com umas lágrimas de felicidade bem salgadas. Depois de um tempo conversando sobre as maravilhas da vida, devolveram a estrela para o mar e voltaram para casa mais felizes do que tinham pensado antes. E agora, havia no mar, uma estrelinha mais contente. Uma estrelinha que sabia muito bem o que era pessoa.
Quando chegou lá, naquele mundão de praia e beleza, o menino largou da mão do pai e correu para a água. O mar estava bem calminho e transparente. E o menino entrou no mar. Ficou parado lá, admirando os sonhados brilhos e também feliz de ver os seus dedos dos pés lá dentro da água, meio cobertos de areia dourada. Pareciam umas minhoquinhas felizes. Estava bem tranquilo e distraído, quando sentiu uma cosquinha no dedo mindinho do pé direito. Ui! Que susto! Uma estrelinha tinha caído do céu e estava ali bem pertinho dele! "Pai! Vem ver a estrelinha caída! Bem bonita, ela!" O pai, que gostava demais do menino e também de estrelas, veio correndo. Quase que pisa nela, mas o menino disse: "Cuidado, pai!", e ele diminuiu o passo e veio chegando mais devagarzinho.
Com todo carinho, pegou a estrelinha e os dois sentaram na areia pra ver melhor. Ela era bem bonitinha e eles ficaram ali respirando juntos e sentiram que o mar tinha invadido os olhos deles um pouquinho, com umas lágrimas de felicidade bem salgadas. Depois de um tempo conversando sobre as maravilhas da vida, devolveram a estrela para o mar e voltaram para casa mais felizes do que tinham pensado antes. E agora, havia no mar, uma estrelinha mais contente. Uma estrelinha que sabia muito bem o que era pessoa.
foto obtida em http://www.sorria.com.br/o-jovem-e-as-estrelas-do-mar/
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016
Histórias de lagartixas.
Quando eu era pequena, eu não tinha medo de pegar em lagartixa. Não só não tinha medo, como até cortava o rabo delas para ver eles se mexendo sozinhos e depois nascerem de novo. Muito cruelzinha e destemida eu, que nem criança.
Hoje não pego, não corto o rabo, e tenho visto muitas aqui em casa. Acho que nunca vi tantas. De vez em quando pula uma por detrás de um quadro, abro uma porta e uma sai correndo pela parede... Tenho visto várias.
E aí pensei que é bom, porque lagartixa come mosquito. E a gente anda numa época que tem até medo de mosquito.
Lembrei também de uma historinha que me aconteceu uma outra vez. Eu estava lendo o livro sobre a vida de Janis Joplin, sozinha numa casa em que morei há muito tempo, à noite. Adormeci e acordei ouvindo meu nome - "Leilaaaa!". Não era ninguém e fiquei BEM assustada. Fui até o banheiro, naquele deserto de gente, procurando me controlar direitinho. Quando estava lá toda distraída e já mais calma: BUM! Uma lagartixa despencou do teto e caiu na tampa da lixeira do banheiro. Gente, só dormi depois de HORAS, e até dormir, eu acho que fiquei com os olhos arregalados, sem piscar e sem respirar.
Bom, é isso por hoje. Histórias de lagartixas.
Hoje não pego, não corto o rabo, e tenho visto muitas aqui em casa. Acho que nunca vi tantas. De vez em quando pula uma por detrás de um quadro, abro uma porta e uma sai correndo pela parede... Tenho visto várias.
E aí pensei que é bom, porque lagartixa come mosquito. E a gente anda numa época que tem até medo de mosquito.
Lembrei também de uma historinha que me aconteceu uma outra vez. Eu estava lendo o livro sobre a vida de Janis Joplin, sozinha numa casa em que morei há muito tempo, à noite. Adormeci e acordei ouvindo meu nome - "Leilaaaa!". Não era ninguém e fiquei BEM assustada. Fui até o banheiro, naquele deserto de gente, procurando me controlar direitinho. Quando estava lá toda distraída e já mais calma: BUM! Uma lagartixa despencou do teto e caiu na tampa da lixeira do banheiro. Gente, só dormi depois de HORAS, e até dormir, eu acho que fiquei com os olhos arregalados, sem piscar e sem respirar.
Bom, é isso por hoje. Histórias de lagartixas.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2016
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016
Em qualquer idade, sejamos livres.
Ia fazer 80 anos e andava meio emburrada com isso. Não que tivesse medo de morrer. Mas tinha um pouco de medo de viver, e do que as pessoas pensavam sobre quem tinha quase 80 anos. Porque ela se sentia com 20. Claro que muita coisa tinha mudado, muita coisa tinha amadurecido, mas muita coisa tinha rejuvenescido também; ou pelo menos, não tinha mudado de idade.
O que mais preocupava era que, aos olhos dos outros, toda pessoa mais velha tende a agir como biruta. Ou dependente. E ela não era nem biruta, nem dependente. E por isso ficava fula da vida.
"Mas escuta, toda idade tem problemas. Criança também é tratada como imbecil. E tem muitos sofrimentos, como por exemplo, quando lhe caem os dentes. Fora aquela eterna sensação de querer ser adulto, de ter liberdade de escolha e de poder ser responsabilizado pelos seus atos, coisa que, pra criança, não chega nunca."
"Cora Coralina, por exemplo..."
"Não me venha com Cora Coralina. Eu não sou Cora Coralina. Eu sou eu. E eu penso o que tenho vontade."
"OK."
Então, por hoje é isso. Sejamos o que somos, reclamemos do que nos dê na telha reclamar. Em qualquer idade, sejamos livres.
O que mais preocupava era que, aos olhos dos outros, toda pessoa mais velha tende a agir como biruta. Ou dependente. E ela não era nem biruta, nem dependente. E por isso ficava fula da vida.
"Mas escuta, toda idade tem problemas. Criança também é tratada como imbecil. E tem muitos sofrimentos, como por exemplo, quando lhe caem os dentes. Fora aquela eterna sensação de querer ser adulto, de ter liberdade de escolha e de poder ser responsabilizado pelos seus atos, coisa que, pra criança, não chega nunca."
"Cora Coralina, por exemplo..."
"Não me venha com Cora Coralina. Eu não sou Cora Coralina. Eu sou eu. E eu penso o que tenho vontade."
"OK."
Então, por hoje é isso. Sejamos o que somos, reclamemos do que nos dê na telha reclamar. Em qualquer idade, sejamos livres.
Foto Internet, autor não identificado.
domingo, 7 de fevereiro de 2016
E a boneca, curtindo o seu maiôzinho amarelo.
Quando fez 6 anos, a menina ganhou uma boneca de pano feita pela avó. Tinha olhos pretos de botão, cabelos de fios de lã, bochechas vermelhas pintadas com rouge, um vestido de feltro verde e sapatinhos listrados. Ficou sendo a sua melhor companhia, e pra todo lugar que ia, a menina carregava a boneca.
Elas moravam numa casa grande com um quintal cheio de árvores e frutas e perfumes de flor. Dormiam juntas e quando acordavam, ficavam um pouquinho na cama olhando para o teto. A mãe da menina tinha pregado nele todo tipo de coisas coloridas que voam e que fazem um barulhinho bom de vidrinhos batendo um no outro quando ventava. Era muito bonito de olhar e de escutar e, por isso, a menina e a boneca sempre levantavam da cama sorrindo.
Iam para o banheiro e a menina escovava os dentes e lavava o rosto. E penteava os cabelos, dela e da boneca. Todo dia fazia um penteado novo, e hoje estavam as duas de rabo de cavalo amarrados com laços de fita amarela. Estavam bem bonitas quando chegaram na cozinha para o café da manhã. A avó tinha feito polenta e a mãe tinha preparado o seu café com leite - nada era mais gostoso nesse mundo do que o café com leite preparado pela mãe. Comeu a polenta também, deu um pedacinho para a boneca, que não gostava de café com leite, e foram brincar no quintal.
Andaram até a beira do riacho e lá sentaram numa pedra fresquinha. A boneca ficou pensando que talvez fosse bom andar com as próprias pernas, assim como a menina, coisa que ela ainda não tinha entendido como fazer. Mas adorava andar carregada no colo, bem aconchegada, ou especialmente quando a menina corria e ela ia voando pendurada pela mão. Então acabava que se esquecia de aprender a andar por conta própria, e talvez por isso ainda não conseguisse.
Uma outra coisa que ela queria muito era aprender a falar. Porque queria poder dizer para a menina que ela queria algumas roupas novas. O vestido de feltro verde estava já um pouco gasto e era muito quente no verão. Mas também não tinha se esforçado ainda para aprender a falar. A menina falava com ela o tempo todo, ela entendia tudo, e quando a menina parava de falar, era porque estava dormindo ou porque tinha começado a correr de novo, então ficava difícil para a boneca ter uma oportunidade. Se a menina dormia, era hora de aconchego e se corria, era hora de aventura, então ela continuava calada e de vestido de feltro verde. Mas uma coisa ela fazia: um pouquinho antes de dormir, ela rezava para a fada das bonecas e pedia umas roupinhas novas. Isso ela fazia todas as noites.
A água do riacho estava muito bonita, cheia de brilhos. A menina tirou os sapatos e colocou os pés na água e disse que estava fresquinha. A boneca continuou lá com os seus sapatos listrados, e não entendia também porque não podia tomar banho. Mas nesse dia especial e inesquecível, a menina fez uma surpresa pra ela. Descalçou os seus sapatos e tirou o seu vestido verde. E de dentro de uma bolsinha, tirou o maiôzinho mais lindo do mundo, todo amarelo e com uma flor rosa na barriga e vestiu a boneca com ele. Ela ficou tão feliz e emocionada que jura que ouviu sua voz dizendo "Feliz!", mas não tem muita certeza se não foi só mesmo na sua cabeça de boneca. Ficaram lá as duas, pegando um solzinho da manhã e curtindo a vida. E a boneca, curtindo o seu maiôzinho amarelo.
Elas moravam numa casa grande com um quintal cheio de árvores e frutas e perfumes de flor. Dormiam juntas e quando acordavam, ficavam um pouquinho na cama olhando para o teto. A mãe da menina tinha pregado nele todo tipo de coisas coloridas que voam e que fazem um barulhinho bom de vidrinhos batendo um no outro quando ventava. Era muito bonito de olhar e de escutar e, por isso, a menina e a boneca sempre levantavam da cama sorrindo.
Iam para o banheiro e a menina escovava os dentes e lavava o rosto. E penteava os cabelos, dela e da boneca. Todo dia fazia um penteado novo, e hoje estavam as duas de rabo de cavalo amarrados com laços de fita amarela. Estavam bem bonitas quando chegaram na cozinha para o café da manhã. A avó tinha feito polenta e a mãe tinha preparado o seu café com leite - nada era mais gostoso nesse mundo do que o café com leite preparado pela mãe. Comeu a polenta também, deu um pedacinho para a boneca, que não gostava de café com leite, e foram brincar no quintal.
Andaram até a beira do riacho e lá sentaram numa pedra fresquinha. A boneca ficou pensando que talvez fosse bom andar com as próprias pernas, assim como a menina, coisa que ela ainda não tinha entendido como fazer. Mas adorava andar carregada no colo, bem aconchegada, ou especialmente quando a menina corria e ela ia voando pendurada pela mão. Então acabava que se esquecia de aprender a andar por conta própria, e talvez por isso ainda não conseguisse.
Uma outra coisa que ela queria muito era aprender a falar. Porque queria poder dizer para a menina que ela queria algumas roupas novas. O vestido de feltro verde estava já um pouco gasto e era muito quente no verão. Mas também não tinha se esforçado ainda para aprender a falar. A menina falava com ela o tempo todo, ela entendia tudo, e quando a menina parava de falar, era porque estava dormindo ou porque tinha começado a correr de novo, então ficava difícil para a boneca ter uma oportunidade. Se a menina dormia, era hora de aconchego e se corria, era hora de aventura, então ela continuava calada e de vestido de feltro verde. Mas uma coisa ela fazia: um pouquinho antes de dormir, ela rezava para a fada das bonecas e pedia umas roupinhas novas. Isso ela fazia todas as noites.
A água do riacho estava muito bonita, cheia de brilhos. A menina tirou os sapatos e colocou os pés na água e disse que estava fresquinha. A boneca continuou lá com os seus sapatos listrados, e não entendia também porque não podia tomar banho. Mas nesse dia especial e inesquecível, a menina fez uma surpresa pra ela. Descalçou os seus sapatos e tirou o seu vestido verde. E de dentro de uma bolsinha, tirou o maiôzinho mais lindo do mundo, todo amarelo e com uma flor rosa na barriga e vestiu a boneca com ele. Ela ficou tão feliz e emocionada que jura que ouviu sua voz dizendo "Feliz!", mas não tem muita certeza se não foi só mesmo na sua cabeça de boneca. Ficaram lá as duas, pegando um solzinho da manhã e curtindo a vida. E a boneca, curtindo o seu maiôzinho amarelo.
sábado, 6 de fevereiro de 2016
O homem e a bolsa
Andava enjoado já com tanta gente dizendo que
ele deveria mudar de emprego. Estavam certos por um lado, já que ele mesmo
reclamava bastante da solidão de trabalhar à noite. O salário também não era
bom. O lugar era distante do centro, ele tinha que ir de ônibus, fazer uma
baldeação na metade do caminho, depois andar durante 15 minutos e sempre sozinho,
e sempre no escuro. Mas, de uns tempos para cá, quando chegava - e isso ele não
contava para ninguém - custava muito a querer sair de lá e voltar para casa. João
tinha um segredo.
Trabalhava como vigia noturno numa fábrica de
pregos. Acordava às 4 da tarde, e tomava um copo de leite enquanto lia o jornal
do dia, já com gosto de notícia velha. Depois ia correr. Gostava de se manter
em forma, e depois que tinha começado a correr se sentia mais disposto e mais
bonito. Às vezes uma dor ou outra nas pernas ou nas costas, mas nada que uns
poucos dias de descanso não resolvessem. Voltava para casa, tomava banho, e
almoçava. Se tivesse que resolver alguma coisa, ia para a rua. Se não, ficava
em casa enrolando até às 8 da noite, quando começava a ir para o trabalho.
Levava duas horas para chegar, e às 10 horas batia o ponto. Trocava meia dúzia de
palavras com os últimos funcionários que deixavam o prédio e começava a fechar
janelas e portas, apagando luzes, verificando se alguém havia esquecido algo e às
vezes até recolhendo lixo das salas para facilitar o serviço das meninas da
limpeza. Saía logo depois que elas
chegavam, às seis da manhã. Elas, sempre com cara de poucos amigos; ele, com um
sorriso no rosto.
O segredo de João tinha começado a se revelar
no dia em que encontrou uma bolsa de mulher esquecida numa das salas. Chegou a
perguntar pela dona na troca de turno, mas ninguém soube dizer de quem era.
Resolveu guardá-la no armário dele, e esperar que a dona se manifestasse.
Por dias e dias nada aconteceu e numa noite de tédio maior do que o normal, resolveu abrir a bolsa para ver se achava algum documento, algo que o levasse à dona. Pois foi aí que aconteceu um fato inédito: no mesmo momento em que João abriu a bolsa, a sala se encheu de flores de indescritível beleza e perfume. Antes que ele pudesse se recuperar da surpresa, elas desapareceram, deixando João tonto, achando que estava vendo coisas de cansado que estava. Tentou se concentrar novamente na tarefa de descobrir a dona da bolsa, e começou a tirar de lá alguns objetos. Achou um pente muito bonito, de madrepérola, e no mesmo momento em que aproximou o pente de seus olhos, para observar seus lindos detalhes, sentiu como que dedos muito suaves deslizando entre seus cabelos. Uou! João deu um pulo pra trás, derrubando a cadeira e fazendo bastante barulho. Começou a suar frio, mas não sentiu mais nenhum toque. Pensou, - Meu Deus, socorro, que coisa esquisita!, mas controlou-se, sentou-se novamente e voltou a vasculhar a bolsa.
Pegou uma caixinha dourada de batom. Ao abri-la, enquanto se maravilhava com o tom de rosa tão bonito, sentiu um beijo esmagando de leve os seus lábios, por um breve momento, também logo desaparecido. Ficou tão nervoso que jogou todo o conteúdo da bolsa em cima da mesa, e viu uma pequena carteira com documentos. Leu o nome da dona: Maria. Foi ele falar o nome em voz alta e a moça mais bonita que ele já tinha visto na vida surgiu, sentada em cima da mesa, sorrindo para ele e olhando em seus olhos, até que ela falou, com voz de encantar pássaros: - Obrigada. Você me libertou! E agora, você quer conversar sobre o quê? Há tanto tempo não tenho um amigo! João estava tão nervoso que gritou, ela se assustou e fugiu. Ao se recuperar, pegou novamente a carteira e leu a data de nascimento de Maria: 1936. Mas como podia? Ela parecia tão jovem! Naquele dia, Maria não apareceu novamente.
Mas por todos os dias seguintes desde então, sempre que João começa a mexer na sua bolsa, ela aparece. Eles conversavam bastante no início, mas agora, quase que passam a noite toda trocando carícias e beijos. João e Maria estão namorando. Sempre que Maria se despede, João põe novamente a bolsa dela no armário e depois de um tempo, sorri.
Por dias e dias nada aconteceu e numa noite de tédio maior do que o normal, resolveu abrir a bolsa para ver se achava algum documento, algo que o levasse à dona. Pois foi aí que aconteceu um fato inédito: no mesmo momento em que João abriu a bolsa, a sala se encheu de flores de indescritível beleza e perfume. Antes que ele pudesse se recuperar da surpresa, elas desapareceram, deixando João tonto, achando que estava vendo coisas de cansado que estava. Tentou se concentrar novamente na tarefa de descobrir a dona da bolsa, e começou a tirar de lá alguns objetos. Achou um pente muito bonito, de madrepérola, e no mesmo momento em que aproximou o pente de seus olhos, para observar seus lindos detalhes, sentiu como que dedos muito suaves deslizando entre seus cabelos. Uou! João deu um pulo pra trás, derrubando a cadeira e fazendo bastante barulho. Começou a suar frio, mas não sentiu mais nenhum toque. Pensou, - Meu Deus, socorro, que coisa esquisita!, mas controlou-se, sentou-se novamente e voltou a vasculhar a bolsa.
Pegou uma caixinha dourada de batom. Ao abri-la, enquanto se maravilhava com o tom de rosa tão bonito, sentiu um beijo esmagando de leve os seus lábios, por um breve momento, também logo desaparecido. Ficou tão nervoso que jogou todo o conteúdo da bolsa em cima da mesa, e viu uma pequena carteira com documentos. Leu o nome da dona: Maria. Foi ele falar o nome em voz alta e a moça mais bonita que ele já tinha visto na vida surgiu, sentada em cima da mesa, sorrindo para ele e olhando em seus olhos, até que ela falou, com voz de encantar pássaros: - Obrigada. Você me libertou! E agora, você quer conversar sobre o quê? Há tanto tempo não tenho um amigo! João estava tão nervoso que gritou, ela se assustou e fugiu. Ao se recuperar, pegou novamente a carteira e leu a data de nascimento de Maria: 1936. Mas como podia? Ela parecia tão jovem! Naquele dia, Maria não apareceu novamente.
Mas por todos os dias seguintes desde então, sempre que João começa a mexer na sua bolsa, ela aparece. Eles conversavam bastante no início, mas agora, quase que passam a noite toda trocando carícias e beijos. João e Maria estão namorando. Sempre que Maria se despede, João põe novamente a bolsa dela no armário e depois de um tempo, sorri.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
A mulher e a chave
Nem sempre se sentava ali naquele banco, mas
sempre almoçava naquela praça. Não gostava de restaurantes. Além de muito
caros, estavam sempre cheios e ela tinha que falar com pessoas. Ela não gostava
de pessoas. Preferia a pessoa dela, pelo menos como companhia para o almoço.
Tinha o costume de levar um sanduíche para o trabalho e ao meio-dia, todos os dias exatamente ao meio-dia, descia para a rua, andava duas quadras e só respirava de verdade quando chegava na praça. Uma única vez tinha tido companhia, quando precisou ajudar um amigo e ficar com a bebezinha dele enquanto o casal descansava um pouco. Nesse dia sentou em um dos bancos, ela com a bebê no colo, e ficaram ali as duas contemplando o que se apresentou disponível para contemplação. Sempre tinha gostado de bebês. E de contemplar. E de ficar em silêncio, como tinham ficado, as duas.
Tinha o costume de levar um sanduíche para o trabalho e ao meio-dia, todos os dias exatamente ao meio-dia, descia para a rua, andava duas quadras e só respirava de verdade quando chegava na praça. Uma única vez tinha tido companhia, quando precisou ajudar um amigo e ficar com a bebezinha dele enquanto o casal descansava um pouco. Nesse dia sentou em um dos bancos, ela com a bebê no colo, e ficaram ali as duas contemplando o que se apresentou disponível para contemplação. Sempre tinha gostado de bebês. E de contemplar. E de ficar em silêncio, como tinham ficado, as duas.
Hoje estava se sentindo um pouco cansada e
resolveu parar de andar para lá e para cá ruminando memórias e pensamentos variados.
Achou um banco solitário, na sombra e de frente para a igreja lá no alto e lá
no fim da praça. Sentou e se mexeu um pouco até achar uma posição confortável.
Abriu a bolsa e de lá tirou o sanduíche do dia. Desembrulhou com calma e ficou
feliz quando deu a primeira mordida, sempre a mais gostosa. Ela se sentiu bem
satisfeita.
De repente notou, entre umas pedras à sua
frente, o que parecia ser uma chave. Grande, de um vermelho quase ferrugem em
algumas partes, parecendo antiga. Limpou o canto da boca com as costas da mão e
colocou o sanduíche sobre a bolsa. Foi lá perto pegar a chave.
Quando puxou, a chave não se soltou imediatamente.
Puxou como pode, tentou afastar o que havia em volta para ver se havia algo
prendendo escondido. Não encontrou nada. A chave se prendia a nada. Levantou-se
assustada. Lembrou da história da Espada na Pedra, que só poderia ser retirada
por aquele que tivesse direito ao trono da Bretanha. Mas o que é que uma chave,
num parque do Rio de Janeiro, poderia ter de tão importante assim, para não
poder ser retirada por uma pessoa qualquer? "Viagem minha...", pensou. A chave devia estar mesmo presa em algo abaixo dela.
Resolveu escavar em volta. E aí, pouco a pouco, percebeu que abaixo da chave havia um pequeno baú. Estava suando já, e bastante atrasada para voltar para o trabalho, mas a curiosidade era maior. Continuou cavando, o esmalte das unhas já totalmente arranhado, até que conseguiu retirar o baú e a chave da terra. Emocionada, sentou-se novamente com os objetos no colo. Chorou um pouquinho para aliviar a tensão e lutou para voltar a respirar normalmente e não cair no sentimento "coitadinha de mim", que fatalmente a acometia sempre que se sentia cansada. Conseguiu se controlar e resolveu tentar usar a chave para abrir o baú.
Estava tudo muito sujo e enferrujado e ela teve que lutar bastante até que finalmente ouviu um clac! Segurou a tampa com as duas mãos, e começou a abrir o baú devagarzinho. Olhou o que havia lá dentro e se sentiu mal na mesma hora. Confusa, enjoada. Lá dentro, um sanduíche muito velho, e um bilhete escrito com a sua própria letra. "Para você saber que já esteve aqui antes, no futuro de hoje, há muito tempo atrás."
Resolveu escavar em volta. E aí, pouco a pouco, percebeu que abaixo da chave havia um pequeno baú. Estava suando já, e bastante atrasada para voltar para o trabalho, mas a curiosidade era maior. Continuou cavando, o esmalte das unhas já totalmente arranhado, até que conseguiu retirar o baú e a chave da terra. Emocionada, sentou-se novamente com os objetos no colo. Chorou um pouquinho para aliviar a tensão e lutou para voltar a respirar normalmente e não cair no sentimento "coitadinha de mim", que fatalmente a acometia sempre que se sentia cansada. Conseguiu se controlar e resolveu tentar usar a chave para abrir o baú.
Estava tudo muito sujo e enferrujado e ela teve que lutar bastante até que finalmente ouviu um clac! Segurou a tampa com as duas mãos, e começou a abrir o baú devagarzinho. Olhou o que havia lá dentro e se sentiu mal na mesma hora. Confusa, enjoada. Lá dentro, um sanduíche muito velho, e um bilhete escrito com a sua própria letra. "Para você saber que já esteve aqui antes, no futuro de hoje, há muito tempo atrás."
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
A menina e a estrela
A noite estava fria e escura e ela estava
sozinha do lado de fora da porta da cozinha de casa. Surpreendentemente, não sentia medo desta vez.
Foi andando mais e mais para dentro do quintal, desviando o rosto das folhas
dos arbustos e das árvores, ouvindo barulhinhos de galho quebrando e de vez em
quando tropeçando em alguma pedra. Quando chegou lá no fundo mesmo, levantou a
cabeça meio que distraidamente e teve uma enorme surpresa: lá no céu, acima do quintal do vizinho, todos os planetas do sistema
solar se apresentavam enfileirados, gigantes, coloridos, lindos, feitos de vento e ar e luz e
transparências de verdade. E giravam, cada um numa velocidade, mas todos juntos.
Ficou ali observando por muito tempo, até que de repente acordou e viu
que tinha estado o tempo todo na sua cama, sonhando. - Ah... então foi sonho!, conformou-se. Mas a sensação de beleza,
paixão e êxtase provocada pela visão de tanta grandeza, revelou-se eterna e foi
impressa de maneira indelével na memória da menina.
A avó dela, num outro tempo mais antigo, tinha visto de verdade um
cometa enorme no céu da cidade onde morava.
- Começava ali em cima de onde é a padaria,
atravessava o céu todinho e ia se acabar onde são as terras de Seu Pipito, lá
perto do curral., dizia, séria, para a neta.
Continuava, sem conseguir conter um começo de
sorriso:
- Foi tanto medo que deu nas pessoas que teve
quem vendesse tudo porque tinha certeza de que o mundo ia se acabar.
E aí,
abrindo o sorriso todo de uma vez:
- Nove meses depois teve uma enxurrada de bebês.
Muitos se chamaram Halley, em homenagem ao cometa.
A menina gostou de poder ter visto uma coisa
impressionante no céu também, mesmo que a da avó tenha sido de verdade e a dela
tenha sido de sonho e desejo.
Mais de cinquenta anos haviam se passado desde o sonho dos planetas e agora era ela também avó. Sentada na cadeira de balanço da varanda de casa, tomava conta da própria neta que brincava no jardim. Tinha uma roupa para remendar no colo, mas
foi ficando cada vez mais relaxada e parou de costurar. Subitamente estava
imersa em lembranças e viu que ainda conseguia recordar todos os detalhes da
sua noite com os planetas no quintal de sua infância. Ouvia, cada vez mais longe, a voz da
neta:
- Sai, sapo! Vai pulá! Mas que sapo enjoado esse, que só quer ficar no vidro!
Adorava o jardim da avó. Tinha 7 anos e gostava
de brincar com a terra, com as plantas e com os bichos. Gostava especialmente
de brincar de fazer comidinha, quando montava um fogãozinho com tijolos e uma
grade, e fazia um fogo com pauzinhos, jornal e paciência. E ajuda de algum
adulto, muitas e muitas vezes. A panela era preta, por ter sido usada para
fazer muitos outros quitutes anteriormente. Hoje ela ia fazer uma delícia:
arroz com salsicha. A avó estava convidada a vir mais tarde almoçar com ela.
Agora ela tomava conta da comida e a avó tomava conta dela, enquanto ressonava
na varanda.
À noite se deitaram juntas e ficaram em silêncio,
só ouvindo os grilos. E um sapo ou outro. Pela janela aberta, conseguiam ver um
pedaço grande do céu, muito preto e com poeira de Via Láctea do tempo em que não
havia tanta luz elétrica assim. A avó começou a contar novamente para ela sobre
o dia em que sonhou os planetas no fundo do quintal. Descreveu cada um deles,
enquanto passava os dedos no seu cabelo, gentil e delicadamente. Com as unhas
compridas, coçava um pouquinho a cabeça da menina, que foi começando a se
aninhar mais e mais no colo gostoso da avó e a bocejar um pouquinho... mais uma
vez... mais uma... e a piscar... de novo... de novo... até que se viu levantando
vôo bem devagar, atravessando a janela, voando mais rápido, lá fora da janela,
lá por cima do flamboyant, lá para o muito alto e lá para dentro do céu, mais
longe... mais longe... até que chegou
onde queria e construiu ela mesma sua própria memória celeste, igual à avó e à
avó da avó. E ficou lá, toda feliz, cozinhando delícias nas pontinhas das
chamas de uma estrela.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016
O menino e a maçã
Tinha acordado com a corda toda e levantou da
cama num pulo. Trocou a calça do pijama por um short de brincar e enfiou a
mesma camiseta do dia anterior, com aquela dificuldade de sempre na hora de
passar pelas orelhas. Passou rapidinho no banheiro, fez um xixi impossível de
segurar e desceu as escadas voando. Subiu novamente com os gritos da mãe de
"Vai dar descarga lá no banheiro e lavar essas mãos que você não mora lá
no chiqueiro com o porco!"
- Tá bem, mãe!
- E vem tomar seu café antes de ir pro mato!
- Tá bem, mãe!
O café era gostoso, mas ele não tinha a menor
fome de manhã, a não ser de aventura. Dessa ele tinha muita, o tempo todo. Sem
fome mesmo e sob o olhar atento da mãe, comeu um pedaço de pão com manteiga e
tomou um copo de leite. Beijou a mãe ainda com bigode branco e correu porta da
cozinha afora. Quase tropeçou em
Fiel, seu cachorro vira-latas, que estava dormindo naquele solzinho da manhã
que cachorro gosta de pegar todo dia cedinho. Fiel acordou com o susto, e saiu
correndo atrás dele, já todo animado também.
Adorava aquela casa que o pai tinha comprado. O
quintal não se acabava. Tinha um lago enorme e nenhum muro entre as casas dos
vizinhos, que ficavam distantes umas das outras, longe o suficiente pra ninguém
incomodar ninguém, e perto o suficiente para os meninos todos se conhecerem já.
Tinha feito 5 amigos, mas hoje ele queria ficar sozinho.
Foi até a margem do lago e desamarrou o
barquinho a remo. Entrou e disse pra Fiel ficar na margem, ele voltaria logo. Só
queria mesmo passear um pouco e ver se conseguia pescar um peixinho qualquer
pra mãe fritar pro almoço. O dia estava gostoso, o lago bem calminho,
refletindo os pequenos montes e árvores à sua volta. A água brilhava com o sol
ainda fraco e o silêncio era tudo o que ele conseguia ouvir. Remou até o meio do lago e resolveu
fincar ali uma pequena âncora, para sossegar e pescar. Preparou a isca e o
anzol como havia aprendido, sempre com pena da minhoca, mas o peixe também ia
acabar sendo comido, então estava tudo certo. A ele ninguém ia comer, ia morrer
de morte natural, de velho, que nem o avô há pouco tempo atrás. Tinha aprendido
a pescar com ele. Gostava muito do avô, e de pescar.
Fez um movimento bonito com a vara e a linha
desenrolou para longe do barco. Ficou ali, quieto, esperando uma mordida. E aí,
de repente, sentiu uma coisa bater nas suas costas e viu quando uma macã rolou
para o fundo do barco. Uma maçã vinda de onde, se não havia nada, nada mesmo em
volta dele? Chegou a ficar arrepiado enquanto escrutinava tudo em volta pra
confirmar que não estava enganado.
Colocou a vara de pescar de lado e catou a maçã
no fundo do barco. Reparou que havia um buraquinho nela.
- Deve ter sido um bichinho que fez esse
buraquinho..., pensou. Pegou uma faca e cortou a maçã pra ver o bicho. E aí,
viu que não tinha bicho nenhum, mas sim, um anel de diamantes. Foi nessa hora
que ouviu um choro de menina. Então, do nada, ele viu uma ilha. Uma ilha
inteira, totalmente nova. Destemido, deslizou o barco para a praia de onde ele
achava que estava vindo o choro. Chegou bem perto, pulou na água e puxou o
barco para a areia para não ter problema pra voltar.
Viu a menina sentada numa pedra, vestido de
flor, as mãos entrelaçadas no colo, ombros caídos, bem tristinha mesmo.
Aproximou-se devagar e pisou num galho sem querer, fazendo barulho. A menina se
assustou, mas não muito, porque ele era também criança e ele parecia ser bem
legal.
- Por que é que você está chorando? ,
perguntou.
- Eu perdi o anel de noivado da minha irmã...,
ela disse.
- Eu encontrei. Estava dentro de uma maçã que
eu não sei como foi parar dentro do meu barco hoje, bateu até nas minhas costas
antes.
- Eu joguei a maçã fora! Porcaria de maçã com
um buraquinho de bicho!
- Mas o anel estava dentro da maçã! Como que
ele foi parar lá?
- Eu não sei... Minha irmã me deu o anel e me
pediu para guardar para ela. Eu estava com fome e chateada porque vi um
buraquinho de bicho na maçã. Quando eu fico nervosa acontecem coisas estranhas,
mas eu não sei explicar... De qualquer forma, você me devolve o anel da minha
irmã?
- Claro que sim! Toma. Mas posso ficar com a maçã?
- Sim, pode!
Se despediram e ele foi pegar o barco. Comeu a
maçã enquanto voltava para casa e esqueceu de pegar peixe pro almoço. Quando
chegou em casa a mãe brigou um pouquinho e ele foi se deitar. Adormeceu
pensando na menina bonita.
Depois desse dia, toda manhã quando acorda,
sente uma dorzinha na barriga. Pelo buraquinho do umbigo, puxa lá de dentro uma
pedrinha de diamante. Depois o umbigo fecha de novo. Quando tiver quinze anos e uma pilha de diamantes, vai
voltar lá na ilha e pedir para se casar com a garota da maçã.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
Ouviu um soluço, e a voz do pai.
Um dia de verão terminando, uma lagoa calma brilhando, o sol se pondo. Uma imagem linda. Mas no carro parado atrás do pequeno bosque, sozinha, com as mãos amarradas para trás, o rosto sangrando e a respiração fraca, ela escutava.
Ouvia sons vindos da praia. Risadas, conversas, som de remos batendo na água. Lembrou de quando era criança e vinha com a família neste mesmo lugar. Lembrou da água cristalina, das pedras e da mata em volta, das garças voando e mergulhando para pescar. Lembrou da cor de caramelo da areia, das montanhas ao longe, das canoas se afastando pelo canal, do vento no rosto. Lembrou das crianças brincando, das bolas, das bóias, das tias, de ficar com uma fome santa, de raspar o prato e de ser elogiada por isso. Lembrou das bebidas doces, dos sorvetes, da bagunça na volta para casa, do sono, dos sonhos. Lembrou do sorriso da mãe.
Gostou tanto da infância ali, que quando ganhou o carro, saía da cidade e ia para lá passear, ficar à toa sozinha, para ler, para pensar, sem medo. Sempre sem medo.
Até hoje. Foi lá para tirar fotos do dia bonito. Parou o carro na sombra do bosque e assim que fechou a porta, sentiu o empurrão, a mão grossa tapando sua boca, a joelhada nas costas, o corpo pesado prendendo o seu. Ouviu a respiração ofegante, respirou o hálito de bebida, escutou o "fica quieta". Começou a suar frio e a se sentir enjoada, as pernas fracas. Sangrou nos pulsos quando lutou contra as cordas que a imobilizaram, sangrou na boca quando ele amarrou a mordaça, bateu forte a cabeça quando perdeu o chão e foi jogada dentro do carro, sem chance. Foi trancada e ouviu passos, se afastando, cada vez mais longe. Depois só escutou o silêncio brutal de estar sozinha e sem voz. Ficou muito tempo assim, até que começou a distinguir os sons do lado de fora e a lembrar de tudo que tinha sido bom. Chorou só um pouquinho, pra não entupir o nariz.
Escureceu. Esfriou. Tentou se mexer, mas não conseguia controlar o medo, nem o corpo. Até que ouviu os passos de novo, o farfalhar do mato, as pisadas quebrando os galhos no chão, cada vez mais perto. Sentiu a garganta apertar e um tremor incontrolável. Fechou os olhos quando a luz da lanterna bateu no vidro da janela, e desejou enlouquecer antes de viver o que estava por vir. Ouviu chamarem seu nome, uma, duas vezes. Ouviu a porta do carro abrindo. Ouviu um soluço, e a voz do pai.
Ouvia sons vindos da praia. Risadas, conversas, som de remos batendo na água. Lembrou de quando era criança e vinha com a família neste mesmo lugar. Lembrou da água cristalina, das pedras e da mata em volta, das garças voando e mergulhando para pescar. Lembrou da cor de caramelo da areia, das montanhas ao longe, das canoas se afastando pelo canal, do vento no rosto. Lembrou das crianças brincando, das bolas, das bóias, das tias, de ficar com uma fome santa, de raspar o prato e de ser elogiada por isso. Lembrou das bebidas doces, dos sorvetes, da bagunça na volta para casa, do sono, dos sonhos. Lembrou do sorriso da mãe.
Gostou tanto da infância ali, que quando ganhou o carro, saía da cidade e ia para lá passear, ficar à toa sozinha, para ler, para pensar, sem medo. Sempre sem medo.
Até hoje. Foi lá para tirar fotos do dia bonito. Parou o carro na sombra do bosque e assim que fechou a porta, sentiu o empurrão, a mão grossa tapando sua boca, a joelhada nas costas, o corpo pesado prendendo o seu. Ouviu a respiração ofegante, respirou o hálito de bebida, escutou o "fica quieta". Começou a suar frio e a se sentir enjoada, as pernas fracas. Sangrou nos pulsos quando lutou contra as cordas que a imobilizaram, sangrou na boca quando ele amarrou a mordaça, bateu forte a cabeça quando perdeu o chão e foi jogada dentro do carro, sem chance. Foi trancada e ouviu passos, se afastando, cada vez mais longe. Depois só escutou o silêncio brutal de estar sozinha e sem voz. Ficou muito tempo assim, até que começou a distinguir os sons do lado de fora e a lembrar de tudo que tinha sido bom. Chorou só um pouquinho, pra não entupir o nariz.
Escureceu. Esfriou. Tentou se mexer, mas não conseguia controlar o medo, nem o corpo. Até que ouviu os passos de novo, o farfalhar do mato, as pisadas quebrando os galhos no chão, cada vez mais perto. Sentiu a garganta apertar e um tremor incontrolável. Fechou os olhos quando a luz da lanterna bateu no vidro da janela, e desejou enlouquecer antes de viver o que estava por vir. Ouviu chamarem seu nome, uma, duas vezes. Ouviu a porta do carro abrindo. Ouviu um soluço, e a voz do pai.
Assinar:
Comentários (Atom)





