sábado, 6 de fevereiro de 2016

O homem e a bolsa


Andava enjoado já com tanta gente dizendo que ele deveria mudar de emprego. Estavam certos por um lado, já que ele mesmo reclamava bastante da solidão de trabalhar à noite. O salário também não era bom. O lugar era distante do centro, ele tinha que ir de ônibus, fazer uma baldeação na metade do caminho, depois andar durante 15 minutos e sempre sozinho, e sempre no escuro. Mas, de uns tempos para cá, quando chegava - e isso ele não contava para ninguém - custava muito a querer sair de lá e voltar para casa. João tinha um segredo.
Trabalhava como vigia noturno numa fábrica de pregos. Acordava às 4 da tarde, e tomava um copo de leite enquanto lia o jornal do dia, já com gosto de notícia velha. Depois ia correr. Gostava de se manter em forma, e depois que tinha começado a correr se sentia mais disposto e mais bonito. Às vezes uma dor ou outra nas pernas ou nas costas, mas nada que uns poucos dias de descanso não resolvessem. Voltava para casa, tomava banho, e almoçava. Se tivesse que resolver alguma coisa, ia para a rua. Se não, ficava em casa enrolando até às 8 da noite, quando começava a ir para o trabalho. Levava duas horas para chegar, e às 10 horas batia o ponto. Trocava meia dúzia de palavras com os últimos funcionários que deixavam o prédio e começava a fechar janelas e portas, apagando luzes, verificando se alguém havia esquecido algo e às vezes até recolhendo lixo das salas para facilitar o serviço das meninas da limpeza.  Saía logo depois que elas chegavam, às seis da manhã. Elas, sempre com cara de poucos amigos; ele, com um sorriso no rosto.
O segredo de João tinha começado a se revelar no dia em que encontrou uma bolsa de mulher esquecida numa das salas. Chegou a perguntar pela dona na troca de turno, mas ninguém soube dizer de quem era. Resolveu guardá-la no armário dele, e esperar que a dona se manifestasse. 

Por dias e dias nada aconteceu e numa noite de tédio maior do que o normal, resolveu abrir a bolsa para ver se achava algum documento, algo que o levasse à dona. Pois foi aí que aconteceu um fato inédito: no mesmo momento em que João abriu a bolsa, a sala se encheu de flores de indescritível beleza e perfume. Antes que ele pudesse se recuperar da surpresa, elas desapareceram, deixando João tonto, achando que estava vendo coisas de cansado que estava.  Tentou se concentrar novamente na tarefa de descobrir a dona da bolsa, e começou a tirar de lá alguns objetos. Achou um pente muito bonito, de madrepérola, e no mesmo momento em que aproximou o pente de seus olhos, para observar seus lindos detalhes, sentiu como que dedos muito suaves deslizando entre seus cabelos. Uou! João deu um pulo pra trás, derrubando a cadeira e fazendo bastante barulho. Começou a suar frio, mas não sentiu mais nenhum toque. Pensou, - Meu Deus, socorro, que coisa esquisita!, mas controlou-se, sentou-se novamente e voltou a vasculhar a bolsa. 

Pegou uma caixinha dourada de batom. Ao abri-la, enquanto se maravilhava com o tom de rosa tão bonito, sentiu um beijo esmagando de leve os seus lábios, por um breve momento, também logo desaparecido. Ficou tão nervoso que jogou todo o conteúdo da bolsa em cima da mesa, e viu uma pequena carteira com documentos. Leu o nome da dona: Maria. Foi ele falar o nome em voz alta e a moça mais bonita que ele já tinha visto na vida surgiu, sentada em cima da mesa, sorrindo para ele e olhando em seus olhos, até que ela falou, com voz de encantar pássaros: - Obrigada. Você me libertou! E agora, você quer conversar sobre o quê? Há tanto tempo não tenho um amigo! João estava tão nervoso que gritou, ela se assustou e fugiu. Ao se recuperar, pegou novamente a carteira e leu a data de nascimento de Maria: 1936. Mas como podia? Ela parecia tão jovem! Naquele dia, Maria não apareceu novamente. 

Mas por todos os dias seguintes desde então, sempre que João começa a mexer na sua bolsa, ela aparece. Eles conversavam bastante no início, mas agora, quase que passam a noite toda trocando carícias e beijos. João e Maria estão namorando. Sempre que Maria se despede, João põe novamente a bolsa dela no armário e depois de um tempo, sorri.

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