No dia seguinte acordaram todos muito cedo. Os meninos correram logo para fora, chapinhando nas poças d'água e deixando as camisolas bem sujas. A governanta, Inês, que ainda não sabia seus nomes, gritava "Parem com isso, vocês! Saiam daí meninos, venham trocar de roupa! Meninos!" Clara veio em seu socorro, colocando Pedro e Jonas para dentro com uma reprimenda e um pedido de desculpas.
- Mas vocês dois, hein, que feio! Subam já e troquem esta roupa por roupas de brincar!
Ana ainda estava bem sonolenta, e queria colo. Inês veio em seu socorro e disse à Clara que ela poria a mesa para o café da manhã. Pouco tempo depois, a família reunida desfrutava de pães e bolos quentinhos, café e chá, leite fresco, queijo e manteiga feitos na casa e uma deliciosa omelete com ovos do quintal. Gustavo veio se juntar a eles no final, pois não gostava de comer pela manhã. Quis apenas uma xícara de café, que tomou enquanto lia um trecho de Irmãos Karamazov para Clara e as crianças:
“Sobretudo não minta a si mesmo. Aquele que mente a si mesmo e escuta sua
própria mentira vai ao ponto de não mais distinguir a verdade, nem em
si, nem em torno de si; perde pois o respeito de si e dos outros. Não
respeitando ninguém, deixa de amar; e para se ocupar, e para se
distrair, na ausência de amor, entrega-se às paixões e aos gozos
grosseiros; chega até a bestialidade em seus vícios, e tudo isso provém
da mentira contínua a si mesmo e aos outros. Aquele que mente a si mesmo
pode ser o primeiro a ofender-se."
- O que acha, Clara, da mentira? Acordei com este trecho do livro na cabeça. Acho eu que a mentira tem seus méritos, desde que não cause mal algum.
Clara colocou Ana no chão e deu à menina sua boneca de pano para brincar. Liberou os meninos para irem para fora novamente, recomendando que tomassem cuidado e que se divertissem até pouco antes da hora do almoço. Pediu também que trouxessem para ela algumas laranjas quando voltassem, queria fazer um doce para o lanche da tarde.
Levantou então os olhos e encarou Gustavo. Ele não parecia ser 10 anos mais velho que ela. Era um homem muito bonito. Seus cabelos apenas começando a ficar grisalhos lhe davam um ar de seriedade que os olhos brincalhões rejuvenesciam.
- Concordo com você, quando diz que uma pequena mentira que não cause mal algum não é realmente um problema. Mas entendo quando o autor afirma que mentir para si mesmo, renegando nossos desejos mais sinceros, nossa verdadeira natureza, pode nos levar a uma vida de vícios e ofensas pessoais, longe de qualquer possibilidade de amor. Acho muito bonito e profundo este trecho.
Gustavo suspirou e fechou os olhos por alguns instantes. Depois, olhando para ela e sorrindo, sugeriu:
- Pois a minha verdade mais absoluta no momento é que eu estou doido para dar uma volta lá fora. Depois da chuva fica tudo muito bonito, limpo e fresco. Vamos? Passeamos um pouco e voltamos em seguida com as suas laranjas.
- Será um prazer. Me dê só alguns instantes para que eu coloque sapatos mais apropriados. Vou também pedir a Inês que olhe Ana para mim. Volto já.
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Hoje continuou. Vejamos amanhã.
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