sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

A mulher e a chave

Nem sempre se sentava ali naquele banco, mas sempre almoçava naquela praça. Não gostava de restaurantes. Além de muito caros, estavam sempre cheios e ela tinha que falar com pessoas. Ela não gostava de pessoas. Preferia a pessoa dela, pelo menos como companhia para o almoço.

Tinha o costume de levar um sanduíche para o trabalho e ao meio-dia, todos os dias exatamente ao meio-dia, descia para a rua, andava duas quadras e só respirava de verdade quando chegava na praça. Uma única vez tinha tido companhia, quando precisou ajudar um amigo e ficar com a bebezinha dele enquanto o casal descansava um pouco. Nesse dia sentou em um dos bancos, ela com a bebê no colo, e ficaram ali as duas contemplando o que se apresentou disponível para contemplação. Sempre tinha gostado de bebês. E de contemplar. E de ficar em silêncio, como tinham ficado, as duas. 
Hoje estava se sentindo um pouco cansada e resolveu parar de andar para lá e para cá ruminando memórias e pensamentos variados. Achou um banco solitário, na sombra e de frente para a igreja lá no alto e lá no fim da praça. Sentou e se mexeu um pouco até achar uma posição confortável. Abriu a bolsa e de lá tirou o sanduíche do dia. Desembrulhou com calma e ficou feliz quando deu a primeira mordida, sempre a mais gostosa. Ela se sentiu bem satisfeita. 
De repente notou, entre umas pedras à sua frente, o que parecia ser uma chave. Grande, de um vermelho quase ferrugem em algumas partes, parecendo antiga. Limpou o canto da boca com as costas da mão e colocou o sanduíche sobre a bolsa. Foi lá perto pegar a chave. 
Quando puxou, a chave não se soltou imediatamente. Puxou como pode, tentou afastar o que havia em volta para ver se havia algo prendendo escondido. Não encontrou nada. A chave se prendia a nada. Levantou-se assustada. Lembrou da história da Espada na Pedra, que só poderia ser retirada por aquele que tivesse direito ao trono da Bretanha. Mas o que é que uma chave, num parque do Rio de Janeiro, poderia ter de tão importante assim, para não poder ser retirada por uma pessoa qualquer? "Viagem minha...", pensou. A chave devia estar mesmo presa em algo abaixo dela. 

Resolveu escavar em volta. E aí, pouco a pouco, percebeu que abaixo da chave havia um pequeno baú. Estava suando já, e bastante atrasada para voltar para o trabalho, mas a curiosidade era maior. Continuou cavando, o esmalte das unhas já totalmente arranhado, até que conseguiu retirar o baú e a chave da terra. Emocionada, sentou-se novamente com os objetos no colo. Chorou um pouquinho para aliviar a tensão e lutou para voltar a respirar normalmente e não cair no sentimento "coitadinha de mim", que fatalmente a acometia sempre que se sentia cansada. Conseguiu se controlar e resolveu tentar usar a chave para abrir o baú. 

Estava tudo muito sujo e enferrujado e ela teve que lutar bastante até que finalmente ouviu um clac! Segurou a tampa com as duas mãos, e começou a abrir o baú devagarzinho. Olhou o que havia lá dentro e se sentiu mal na mesma hora. Confusa, enjoada. Lá dentro, um sanduíche muito velho, e um bilhete escrito com a sua própria letra. "Para você saber que já esteve aqui antes, no futuro de hoje, há muito tempo atrás."

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