quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

A menina e a estrela


A noite estava fria e escura e ela estava sozinha do lado de fora da porta da cozinha de casa. Surpreendentemente, não sentia medo desta vez. Foi andando mais e mais para dentro do quintal, desviando o rosto das folhas dos arbustos e das árvores, ouvindo barulhinhos de galho quebrando e de vez em quando tropeçando em alguma pedra. Quando chegou lá no fundo mesmo, levantou a cabeça meio que distraidamente e teve uma enorme surpresa: lá no céu, acima do quintal do vizinho, todos os planetas do sistema solar se apresentavam enfileirados, gigantes, coloridos, lindos, feitos de vento e ar e luz e transparências de verdade. E giravam, cada um numa velocidade, mas todos juntos. 
Ficou ali observando por muito tempo, até que de repente acordou e viu que tinha estado o tempo todo na sua cama, sonhando. - Ah... então foi sonho!, conformou-se. Mas a sensação de beleza, paixão e êxtase provocada pela visão de tanta grandeza, revelou-se eterna e foi impressa de maneira indelével na memória da menina. 
A avó dela, num outro tempo mais antigo, tinha visto de verdade um cometa enorme no céu da cidade onde morava.
- Começava ali em cima de onde é a padaria, atravessava o céu todinho e ia se acabar onde são as terras de Seu Pipito, lá perto do curral., dizia, séria, para a neta.
Continuava, sem conseguir conter um começo de sorriso:
- Foi tanto medo que deu nas pessoas que teve quem vendesse tudo porque tinha certeza de que o mundo ia se acabar.
E aí,  abrindo o sorriso todo de uma vez:
- Nove meses depois teve uma enxurrada de bebês. Muitos se chamaram Halley, em homenagem ao cometa.
A menina gostou de poder ter visto uma coisa impressionante no céu também, mesmo que a da avó tenha sido de verdade e a dela tenha sido de sonho e desejo.
Mais de cinquenta anos haviam se passado desde o sonho dos planetas e agora era ela também avó. Sentada na cadeira de balanço da varanda de casa, tomava conta da própria neta que brincava no jardim. Tinha uma roupa para remendar no colo, mas foi ficando cada vez mais relaxada e parou de costurar. Subitamente estava imersa em lembranças e viu que ainda conseguia recordar todos os detalhes da sua noite com os planetas no quintal de sua infância. Ouvia, cada vez mais longe, a voz da neta:
- Sai, sapo! Vai pulá! Mas que sapo enjoado esse, que só quer ficar no vidro! 
Adorava o jardim da avó. Tinha 7 anos e gostava de brincar com a terra, com as plantas e com os bichos. Gostava especialmente de brincar de fazer comidinha, quando montava um fogãozinho com tijolos e uma grade, e fazia um fogo com pauzinhos, jornal e paciência. E ajuda de algum adulto, muitas e muitas vezes. A panela era preta, por ter sido usada para fazer muitos outros quitutes anteriormente. Hoje ela ia fazer uma delícia: arroz com salsicha. A avó estava convidada a vir mais tarde almoçar com ela. Agora ela tomava conta da comida e a avó tomava conta dela, enquanto ressonava na varanda.
À noite se deitaram juntas e ficaram em silêncio, só ouvindo os grilos. E um sapo ou outro. Pela janela aberta, conseguiam ver um pedaço grande do céu, muito preto e com poeira de Via Láctea do tempo em que não havia tanta luz elétrica assim. A avó começou a contar novamente para ela sobre o dia em que sonhou os planetas no fundo do quintal. Descreveu cada um deles, enquanto passava os dedos no seu cabelo, gentil e delicadamente. Com as unhas compridas, coçava um pouquinho a cabeça da menina, que foi começando a se aninhar mais e mais no colo gostoso da avó e a bocejar um pouquinho... mais uma vez... mais uma... e a piscar... de novo... de novo... até que se viu levantando vôo bem devagar, atravessando a janela, voando mais rápido, lá fora da janela, lá por cima do flamboyant, lá para o muito alto e lá para dentro do céu, mais longe...  mais longe... até que chegou onde queria e construiu ela mesma sua própria memória celeste, igual à avó e à avó da avó. E ficou lá, toda feliz, cozinhando delícias nas pontinhas das chamas de uma estrela.

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