quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Uma pena, tão jovem.

Todas as vezes em que passava por aquela rua, especialmente em frente à casa de dois andares pintada de amarelo, sentia-se mal. Arrepios, enjôo, sensação de que ia desmaiar não eram incomuns. Evitava ao máximo passar por ali, mas ao mesmo tempo, achava aquilo tão intrigante que de vez em quando não resistia. Ao invés de seguir em frente, dava a volta no quarteirão e arriscava. Batata. Todas as vezes, uma sensação qualquer, estranha e fúnebre.

Já tinha perguntado a várias pessoas de quem era a casa, porque nunca tinha encontrado alguém lá.

- É de um moço que vem às vezes, nem sempre. Não sei o nome dele.

- É de um moço triste, que quase não aparece. Dizem que vive em Minas Gerais e só vem aqui para pegar a correspondência.

- Ah, é de um moço que se mudou. Eu soube que ele não quer vender a casa porque morou aí com a família. Foi para Minas, vem de vez em quando...

Curioso era o fato de que ele se sentia doente toda vez que passava ali. Mais curioso ainda, era que ele ficava cada vez com mais vontade de entrar na casa, descobrir seus segredos. E agora que sabia que o dono só vinha às vezes, resolveu que ia se aventurar.

Na semana seguinte saiu de casa cedo, beijou a filha na testa, abraçou a mulher e disse que voltava para jantar. Elas lhe desejaram um bom dia, ele tomou o último gole de café e saiu apressado. Na esquina, ligou para o escritório e disse que ia chegar mais tarde. Tomou coragem e no caminho para a casa amarela reparou que estava nervoso, mais do que uma vez. Parava, respirava, continuava. Não era possível conviver por mais tempo com esse medo doido.

Chegou perto da casa e reparou que não havia ninguém. A rua também estava vazia e calma. Resolveu pular o muro e alguns arranhões depois, estava lá dentro. "Nossa, que sensação horrível.", pensou. Estava ficando muito enjoado e tonto. Mas continuou firme em direção à porta principal. Surpreendentemente, encontrava-se destrancada. Suava frio e enxugou a testa com as costas da mão antes de empurrar a porta. Sentiu, pela primeira vez depois de muitos e muitos anos, um perfume doce que custou a lembrar de onde conhecia.

- Mãe!

Não podia acreditar no que via. Sua mãe querida, morta havia anos, lá estava, de costas, na cozinha, como sempre, preparando algo para o café da manhã. O pai, também falecido, estava sentado à mesa, lendo o jornal. Ambos se viraram para ele com surpresa, mas não por outra razão do que pelo grito que ele havia deixado escapar.

- O que foi, meu filho? Dormiu mal?

Quando olhou para si mesmo, era apenas um garoto pequeno, de pijamas ainda, um pouco enjoado pela mistura de sono, cheiro de bacon e perfume de flores da mãe.

Lá fora, na rua, as pessoas se aglomeravam perto do muro. O corpo do rapaz estava caído na calçada, provavelmente havia morrido em consequência da queda quando tentava escalar o muro alto. Uma pena, tão jovem.

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