E quando não se tem inspiração nenhuma, a gente cata palavras no vento e tenta fazer alguma coisa com elas.
Minhas palavras no vento hoje são: sol, arte e pensamento.
Então, num dia de sol, Marta estava relaxando no jardim de casa, ali, bem onde tinha sombra, debaixo da jabuticabeira. A jabuticabeira da casa de Marta não era assim dessas que se planta hoje em dia, pequenininhas e já abusadas o suficiente para gerar flores e frutas deliciosas. A dela era enorme, do tipo que a gente escala e fica lá em cima, horas, só estalando jabuticaba madura e cuspindo o caroço longe. Pois ali estava Marta, num dia de sol, debaixo da sombra da jabuticabeira da casa dela.
Foi quando Pedro chamou no portão. Pedro é artista e vende sua arte em brincos, pulseiras e anéis feitos com muita cor e juventude. Marta levantou e foi ver quem era. Abriu uma portinha e viu a carinha do rapaz. Disse: "Não, obrigada, hoje não vou comprar nada." Pedro se despediu com um sorriso e Marta com outro. Fechou a portinha e voltou para a sombra.
Até que seus olhos foram ficando pesados e seu corpo bem relaxado. Marta adormeceu e sonhou com Pedro. Ela estava na praia, era jovem como ele, tinha muitas pulseiras enfeitando braços e tornozelos. Os cabelos voavam, os dentes brilhavam, o corpo se deixava levar pelas ondas pra dentro e pra fora da praia. Ficou ali muito tempo, só boiando, furando onda, jogando água pra cima pra ver as gotas voltarem pro mar. A Marta do sonho viu Pedro na areia. E achou ele mais lindo que tudo. E foi lá, conversar com ele. Ele também achou Marta bonita e quis continuar conversando depois da praia. Caminharam juntos até a casa dela e na despedida, ele disse "A gente se vê.", sabendo que ia acontecer de verdade. Os dois sorriram quando Marta fechou o portão atrás dela.
Marta acordou com uma picadinha de formiga no dedo do pé. Afastou a formiga, se espreguiçou e viu que já estava tarde, que tinha dormido horas. Levantou devagarzinho, recolheu a canga do chão e andou até a casa. Esticou a canga na cerca da varanda, ajeitou uma mecha de cabelo que estava fazendo cosquinha na boca e nunca mais conseguiu tirar Pedro do pensamento.
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