- Falei pra ela isso ontem. De novo. Já não aguento mais falar em vão. Mas tenho certeza de que a outra única coisa que me passa pela cabeça, que é sair fora, abandonar o barco, não vai adiantar também.
- Fica tranquila, ela vai acabar entendendo que você só quer o bem dela. Eu sei que é difícil, mas tenha paciência.
Eu não tinha mais paciência. Estava treinando as meninas para uma competição que ia acontecer em duas semanas e uma delas, a mais preparada fisicamente, era a mais despreparada emocionalmente. Não se enxergava. Não via que tinha corpo, potência, alongamento e técnica suficientes para ganhar o que quisesse, ou pelo menos para competir com alegria. Era insuportável não saber o que fazer nessa situação.
Catarina tinha 16 anos. Como é que se conserta autoestima de quem já tem 16 anos? O que é que pode acontecer para que uma moça tão bonita e talentosa fique assim tão insegura? Porque a minha reação já era de automaticamente ficar irritada, e isso não ia levar nós duas a lugar nenhum.
No ensaio seguinte, não sei exatamente o motivo, resolvi respirar. Respirar o tempo todo, concentrando toda minha atenção em mim mesma. Sem culpa. Sem futuro, sem passado, só respirando e observando a minha respiração. Catarina estava lá no meio, com as outras, ensaiando, e embora as palavras saíssem da minha boca, orientando as meninas, o que eu ouvia era uma voz abafada, como se eu estivesse falando debaixo d'água. E ouvia o som da minha respiração, sem parar, sem parar.
Nos encontros seguintes, fiz a mesma coisa. E lá pelo quarto ou quinto, algo diferente aconteceu. Eu me senti diferente, mais calma, mais forte, mais centrada, mais capaz, mais tranquila. Parei de tentar desesperadamente atingir algum tipo de sucesso exterior. Eu não precisava mais ajudar Catarina. Eu estava feliz comigo mesma. Olhei para ela e sorri, enquanto continuava concentrada na minha respiração. Ela, surpresa, sorriu de volta. E as coisas começaram a melhorar entre nós.
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