- Não, não, não, não e não!
- Mas é só hoje, por favor, só hoje!
- Meu Deus do Céu, quantas vezes eu vou ter que repetir! Não!
Ficou em silêncio por alguns instantes, mas logo insistiu:
- Mas mãe, por favor, eu to pedindo, eu vou me comportar, eu não vou perturbar ninguém, eu quero ir com você para o trabalho, por favor, mãe!
- Mas eu já disse que não posso! Como é que eu vou enfiar você dentro de uma cabine de avião comercial? Só tem lugar pra dois, você por acaso é copiloto?
Acabou aceitando o limite. Tinha inveja dos amigos que iam com as mães pro escritório ou pra escola onde trabalhavam. Sentia falta dela quando voltava para casa e ela ainda não tinha chegado. Ela era muito bonita, feminina, e muito doce. E tinha nascido com esse desejo de voar. E não tinha sido nada fácil pra ela. Já tinha ouvido muitas conversas sobre todo preconceito que ela tinha enfrentado: mulher é "... mais maluca", "... mais burra", "... mais instável emocionalmente". Mas a mãe tinha tirado de letra, com perseverança e sorriso cativante.
Olhando pro filho, naquele momento, ela se deu conta de que tinha se esquecido desse detalhe: dá para ser piloto de avião, mas não dá pra levar o filho pro trabalho.
- Mãe, a gente faz assim: você me leva pra viajar nesse avião, eu vou de passageiro e de vez em quando, se puder, eu vou lá na cabine ficar com você.
Suspirou e disse não mais uma vez. Voou sem o filho. No retorno, prometeu a ele que quando fizesse 14 anos, iria matriculá-lo na escola de cadetes da aeronáutica. Que ele iria aprender a pilotar e que aí sim estariam sempre juntos.
Mas ele não quis. Cresceu e quis ser bailarino. Enfrentou muito preconceito, mas tirou de letra, com perseverança e seriedade. Sempre que podia, levava a mãe pro trabalho com ele. Os dois gostavam muito.
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