segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Vera nunca mais chegou atrasada.

Vera desceu a rua apressada. Era a segunda vez que ia chegar atrasada no trabalho novo. No dia anterior o chefe já tinha olhado pra ela com cara de poucos amigos e ela só conseguia pensar que hoje ia ser ainda pior. Não estava acostumada a usar salto e jurou que no dia seguinte ia usar tênis até a porta do escritório. Não tinha comido em casa, passou na padaria correndo, pegou um pão doce e um café pra viagem. Chegou no elevador 5 minutos antes da hora, mas a fila estava enorme. Todo mundo com o mesmo problema. Teve que esperar, porque se resolvesse subir os 38 andares a pé é que não ia chegar nunca mesmo. Conseguiu chegar 10 minutos atrasada, e a primeira pessoa que viu foi o chefe, com uma cara horrível. Ofereceu o pão doce e o café pra ele. Ele aceitou. Devia ser fome, a cara feia dele. A mãe dela sempre disse isso, que cara feia é fome.

Bom, agora quem ia ficar com fome era ela, mas pelo menos tinha amansado o fera. Sentou no seu lugar pequeno e longe da janela. Olhou pra foto do irmão que tinha colocado lá ontem num canto. Suspirou, percebendo uma ponta de tristeza. Gostava muito do irmão, sentia muita saudade dele. Há uns dois anos não se viam, desde que ela veio morar na cidade. Mandava dinheiro todo mês pra casa da mãe, até que ficou desempregada por dois meses. Não podia se atrapalhar agora, todo mundo na família dependia dela. Começou a grampear o que era pra ser grampeado e foi fazendo uma pilha enorme de papéis para a contabilidade. Até que o serviço não era ruim, ela sempre tinha gostado de brincar de secretária.

No meio do dia conseguiu descer para a rua. A barriga estava fria, sinal inequívoco de que precisava comer alguma coisa rápido. Foi no lanche preferido: pizza de sardinha com vitamina de abacate. Combinação que só é estranha pra quem nunca comeu isso, porque se comeu uma vez, vai repetir muitas vezes. Tinha meia hora pra almoçar e observar as pessoas. Era o que Vera mais gostava de fazer, observar os outros e inventar a vida deles. Um dia ela ia escrever histórias, pensava... Até que viu o chefe. Ali, sozinho na lanchonete, ele parecia mais novo e mais calmo. E mais triste. Vera viu quando ele tirou o papelzinho de dentro da carteira e olhou o retrato da moça. E ela jura que viu ele chorando um pouquinho.

Ela ficou tão surpresa que fez barulho com o copo e o prato e ele olhou pra ela. Os dois disfarçaram e logo estavam subindo novamente para o escritório, cada um num elevador diferente.

Vera nunca mais chegou atrasada.

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