sábado, 12 de dezembro de 2015

Para começar tudo de novo de novo.

Era uma vez uma casa de vó numa cidade pequena, chamada pelo nome do rio que corria nela.

Tinha um cinema só e uma feira livre todo sábado, onde as pessoas podiam comprar frutas, legumes, e também pequenos presentes e utilidades domésticas.

Feijão, arroz e milho eram comprados a granel. Na mercearia havia várias gavetas grandes, de balanço, cheias de cereal, e você podia pegar a quantidade desejada usando uma colher grande de alça. Colocava o que quisesse num saco de papel e levava pra casa. E quando fosse cozinhar, tinha que catar o feijão, porque vinha junto feijão bom, feijão esquisito, pedrinhas e pedacinhos de pau. E o movimento das mãos da avó separando o feijão bom do que não era feijão bom era encantador.


O banho de rio era todo dia no verão. As pedras roladas no fundo eram boas de pisar e a água era muito fresquinha. E o som do rio, muito bonito. O céu da noite era preto, coalhado de estrelas, e passava satélite que a gente ficava acompanhando.

O entardecer era cheio de vagalumes. E o rio, de filhotes de sapo. Girinos pretinhos, bolinha e rabinho, que cresciam devagar pernas e braços e cabeça de sapo. E aí podiam morar fora d'água e sair pulando por aí.

E tinha flamboyant com suas raízes enormes e suas folhas vermelhas. E tinha muita goiaba e a avó fazia goiabada no tacho e depois de pronta colocava em cima da geladeira num prato. Daí, toda vez que dava vontade, era só pegar lá em cima e tirar um pedaço grande e comer pura ou dentro do pão, enquanto lia na cama, sentindo o calor lá de fora que entrava pela janela aberta, folhas de madeira presas na parede externa com umas cabecinhas de gente de metal fundido. Muito interessantes.

O jardim tinha cheiro de alfavaca, uma espécie de manjericão selvagem, que a avó usava como tempero. E tinha pé de guando, e quando se fazia frango ao molho pardo, havia sempre uma panela grande de guando cozido para acompanhar. Melhor ainda do que feijão.

E pra ter o frango ao molho pardo, a avó matava um e deixava o sangue dele escorrer do pescoço para uma tigela. Depois escaldavam o bicho. Depois ainda tinha que tirar todas as penas raspando com uma faca, e às vezes a cozinha ficava com um pouco de cheiro de pena queimada, que é muito parecido com cheiro de cabelo queimado, e não é bom.

E às vezes também a pele do frango mesmo depois de cozida ficava com umas mini penas, o que também não era bom, mas o frango ao molho pardo era sempre bem-vindo. Era sempre dia de festa.

Em dias de festa, depois do almoço, todo mundo dormia um pouco. E quando acordavam, os homens iam jogar truco e as mulheres iam fazer bolo e café. E as crianças ficavam por lá inventando. E quando dava fome, o bom era triturar biscoito maisena e misturar com banana. Igual a farinha láctea com banana, muito gostoso.

À noite, depois do banho e do jantar, alguém contava histórias. Ou se ouvia música. Uma vez ou outra, TV.

Até que era hora de ir para a cama e deitar ouvindo o som dos grilos. E aí dormir, sonhar e depois acordar para começar tudo de novo de novo na manhã seguinte, de preferência com um belo de um banho de rio.


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