Era uma vez uma casa de vó numa cidade pequena, chamada pelo nome do rio que corria nela.
Tinha um cinema só e uma feira livre todo sábado, onde as pessoas podiam comprar frutas, legumes, e também pequenos presentes e utilidades domésticas.
Feijão, arroz e milho eram comprados a granel. Na mercearia havia várias gavetas grandes, de balanço, cheias de cereal, e você podia pegar a quantidade desejada usando uma colher grande de alça. Colocava o que quisesse num saco de papel e levava pra casa. E quando fosse cozinhar, tinha que catar o feijão, porque vinha junto feijão bom, feijão esquisito, pedrinhas e pedacinhos de pau. E o movimento das mãos da avó separando o feijão bom do que não era feijão bom era encantador.
O banho de rio era todo dia no verão. As pedras roladas no fundo eram boas de pisar e a água era muito fresquinha. E o som do rio, muito bonito. O céu da noite era preto, coalhado de estrelas, e passava satélite que a gente ficava acompanhando.
O entardecer era cheio de vagalumes. E o rio, de filhotes de sapo. Girinos pretinhos, bolinha e rabinho, que cresciam devagar pernas e braços e cabeça de sapo. E aí podiam morar fora d'água e sair pulando por aí.
E tinha flamboyant com suas raízes enormes e suas folhas vermelhas. E tinha muita goiaba e a avó fazia goiabada no tacho e depois de pronta colocava em cima da geladeira num prato. Daí, toda vez que dava vontade, era só pegar lá em cima e tirar um pedaço grande e comer pura ou dentro do pão, enquanto lia na cama, sentindo o calor lá de fora que entrava pela janela aberta, folhas de madeira presas na parede externa com umas cabecinhas de gente de metal fundido. Muito interessantes.
O jardim tinha cheiro de alfavaca, uma espécie de manjericão selvagem, que a avó usava como tempero. E tinha pé de guando, e quando se fazia frango ao molho pardo, havia sempre uma panela grande de guando cozido para acompanhar. Melhor ainda do que feijão.
E pra ter o frango ao molho pardo, a avó matava um e deixava o sangue dele escorrer do pescoço para uma tigela. Depois escaldavam o bicho. Depois ainda tinha que tirar todas as penas raspando com uma faca, e às vezes a cozinha ficava com um pouco de cheiro de pena queimada, que é muito parecido com cheiro de cabelo queimado, e não é bom.
E às vezes também a pele do frango mesmo depois de cozida ficava com umas mini penas, o que também não era bom, mas o frango ao molho pardo era sempre bem-vindo. Era sempre dia de festa.
Em dias de festa, depois do almoço, todo mundo dormia um pouco. E quando acordavam, os homens iam jogar truco e as mulheres iam fazer bolo e café. E as crianças ficavam por lá inventando. E quando dava fome, o bom era triturar biscoito maisena e misturar com banana. Igual a farinha láctea com banana, muito gostoso.
À noite, depois do banho e do jantar, alguém contava histórias. Ou se ouvia música. Uma vez ou outra, TV.
Até que era hora de ir para a cama e deitar ouvindo o som dos grilos. E aí dormir, sonhar e depois acordar para começar tudo de novo de novo na manhã seguinte, de preferência com um belo de um banho de rio.
Impressive!
ResponderExcluirAh, obrigada, amor! <3
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