Esse é um blog, um diário de contos. Entre outras coisas.
Há muito tempo atrás, no tempo em que as ruas eram iluminadas por lampiões, se você pegasse a barca do Rio para Niterói numa noite escura, poderia te acontecer algo parecido com isso que eu vou contar agora.
O José trabalhava no Rio e morava em Niterói. Quando deixava a Estação das Barcas e pegava a margem da esquerda, a caminho de casa, estava sempre já escuro e quieto. Ele estava até acostumado a enxergar com a luz da Lua, quando havia, ou menos um pouco quando não havia nada.
Uma noite, ele ouviu um chorinho. Fraco, mas presente. E José caminhou mais para perto da fonte do som e viu o que pensava que ia ver: um bebezinho, embrulhado numa mantinha, chorando baixinho. Sozinho. José na mesma hora pegou o bebezinho no colo e foi em busca de ajuda.
Os lampiões ficavam bem longe um do outro e assim que chegou no seguinte, José quis ver a carinha do bebê e lhe prestar mais algum consolo. Pois, ao afastar a manta e olhar para o seu rostinho, José, horrorizado, viu que a criança tinha dentes gigantes de rato. Compridos, grossos, amarelados, dois deles chegavam-lhe ao queixo.
José jogou a criança no mato e o mais rápido que pode correu desabalado na direção do próximo poste de luz. Ao se aproximar, percebeu que lá estava um guarda municipal prestando vigilância.
O esbaforido e ofegante José conseguiu chegar até o guarda, ainda correndo e gritando e resumindo a história esganiçadamente assim: "Eu vi um bebê horrível com dentes enormes de rato!"
Ao que o guarda se virou... devagar... a luz do lampião revelando aos poucos a sua cara estranha, e perguntou com toda a calma e numa voz bem grave: "Maiores do que os MEUS?"
Seus dentes horríveis, compridos, grossos e amarelados, chegavam-lhe até o peito.
E esse foi o conto de hoje.
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