sábado, 5 de dezembro de 2015

PÂNICO, SETA, ACONTECIMENTO. (continuação 1)

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A SETA

Todo mundo no navio estava em festa, menos ela. Trancada no quarto pequeno, sem janelas, abaixo da linha do mar, se sentia angustiada, mas ainda preferia a angústia a fingir que estava alegre, quando não estava. Tinha tentado ficar do lado de fora, no convés, mas estava tudo muito molhado e gelado. E nos salões de dentro, quentes e coloridos, músicas, vozes, movimento, tudo fazia com que ela se sentisse cada vez mais só. O namoro tinha terminado abruptamente, no cais. A viagem planejada a dois por tanto tempo, havia se transformado em tempo para pensar. Não queria chorar mais, não gostava de cultivar tristeza, e resolveu tentar dormir. Mas o sono não vinha. Depois de um tempo, colocou os casacos novamente e resolveu subir pro frio lá fora.

Ele viu o navio entrar no canal. Todo iluminado, como todos os que vinham até aqui nesta época do ano. Branco, muitos andares, ficando cada vez maior à medida em que se aproximava, seguindo a seta de espuma criada enquanto rasgava o mar. Ele ficou imaginando se ali, no meio de tanta gente e de tanta festa, haveria alguém que estivesse assim como ele, querendo silêncio. Distraiu-se com o próprio pensamento, imaginando pessoas, quando ouviu um som alto de alerta e viu que um pequeno barco havia se soltado das cordas e que estava lá, flutuando para o meio do canal, perto demais para que o navio parasse a tempo.

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to be continued.

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