Os armários das minhas avós eram diferentes, mas ambos eram fascinantes para mim.
No de uma delas, alto, se a gente subisse numa cadeira e esticasse bem o braço e passasse de um lado para o outro, acabava achando uma caixa de madeira cheia, mas cheia de moedas. Eu adorava pegar a caixa, derrubar tudo na cama e ficava ali um tempão, admirando, separando e fazendo pilhas de moedas do mesmo tamanho. Às vezes ela sentava comigo e me contava histórias sobre as moedas. "Essa foi um troco de um sorvete que o seu avô comprou para mim." Moedas com memórias. No armário dessa vovó, outro tesouro querido eram os romances em livro de bolso, baratinhos, comprados na banca de jornal. Tinha um monte também. Li todos. E eu pensava, "um dia, quando eu crescer, eu vou escrever romances assim, baratinhos, pra vender na banca de jornal." Outra coisa que eu gostava no armário da vovó eram os perfumes dela. E as maquiagens. E as luvas. Essa vovó tinha luvas de pelica, que eu calçava e ficava fingindo que era artista de cinema.
O armário da outra avó era diferente. Menorzinho, mais claro. O que eu mais adorava, que tinha lá dentro, era uma boneca que tinha sido da minha mãe e que tinha cara de porcelana. Ela deixava eu brincar um pouquinho com a boneca, mas não muito, porque podia quebrar e ela já guardava a boneca há muito tempo pra deixar acontecer uma bobeira qualquer. Essa vovó também guardava uma pilha lisinha de papel de presente usado. Quando acabavam as festas, ela sempre passava os papéis a ferro, alisava direitinho e dobrava pra usar depois. Outra coisa que tinha no armário dessa avó era um monte de caixas de sapatinho de crochê que ela fazia pros nenéns que eram pobres. Ela tinha horror de sentir frio nos pés. E essa vovó também tinha maquiagem, sendo que uma eu achava especial: um lápis preto que ela usava pra fazer uma pinta acima do lábio, quando saía. Ficava bonita a minha avó, com a pinta.
Tinha me esquecido dos armários das avós. Isso de escrever tem suas vantagens. Uma delas é essa. A gente lembra de coisa que nunca quis esquecer.
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